Título: Lula se irrita com sede petista por cargos no governo
Autor: Sérgio Pardellas
Fonte: Jornal do Brasil, 13/05/2005, País, p. A2

Discurso pedindo saída de Aldo dificulta formação de coalizão com outros partidos

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva mostrou forte irritação, em conversas reservadas durante a semana, com a insistência do PT em ampliar espaços na estrutura administrativa do governo.

- Enquanto eu preciso de um governo de coalizão, querem um governo do PT - teria desabafado o presidente, segundo um ministro do núcleo político.

Lula estaria furioso com a pressão do PT pela saída de Aldo Rebelo (PCdoB) da Coordenação Política. O presidente não teria gostado das declarações do ministro de Comunicação e Gestão Estratégica, Luiz Gushiken, de que o momento exigiria a nomeação de um petista para a Coordenação. Também não digeriu a articulação do ex-presidente da Câmara, João Paulo Cunha (PT-SP), para substituir Aldo, sob o argumento de que resolveria a disputa interna pela candidatura ao governo de São Paulo em 2006.

O presidente está convencido que Aldo seria apenas um bode expiatório para a crise que se arrasta na bancada governista. Por isso, ao menos por hora, o mantém no cargo apesar dos apelos públicos das mais expressivas lideranças petistas no governo. Apesar de saber que a situação é desconfortável para o ministro, que pôs o cargo à disposição na semana passada.

Ninguém ousa arriscar, no entanto, o caminho que o presidente seguirá. Há, no Palácio, quem ainda acredite na sobrevida de Aldo, apesar das evidências em contrário. E que, a despeito da pressão dos petistas, uma eventual saída do ministro abriria espaço no comando da Coordenação para outro partido. O PMDB, ligado ao senador José Sarney, pressiona para encaixar a senadora Roseana Sarney (PFL).

Lula temeria uma repercussão negativa numa eventual saída de Aldo com consequências imprevisíveis para as negociações visando as eleições de 2006. No governo, Aldo personifica a coalizão. Sua saída poderia dar ares de uma nova ''petização'' do governo, quando o discurso para o próximo ano é o inverso: de alianças o mais amplas possíveis. O próprio chefe da Casa Civil, José Dirceu, reconhece que o governo precisa ceder espaço se quiser tranquilidade em 2006.

O círculo do PT mais próximo ao presidente argumenta que só alguém como Dirceu, com ascendência sobre os petistas e autoridade sobre os aliados, teria o perfil para conduzir com competência a articulação com o Congresso nesse momento de turbulência.

Dois ministros que conversaram com Lula disseram que ele anda irritado, irascível e contrariado com a perda do controle político sobre o Congresso mas identificaram uma disposição para resolver a questão o quanto antes. Acreditam que o primeiro passo foi dado ontem ao chamar o presidente da Câmara, Severino Cavalcanti (PP-PE), para uma conversa.

Não foi a primeira vez que Lula criticou a ânsia petista em ocupar a máquina administrativa. Às vésperas da reforma ministerial, pressionado pelo PT, Lula ameaçou não concorrer à reeleição em 2006 caso fossem criados obstáculos à consolidação do governo de coalizão.