Título: A Varig continua refém do Planalto
Autor: Cláudio Magnavita*
Fonte: Jornal do Brasil, 13/05/2005, Economia & Negócios / Além do Fato, p. A20
Ao receber os novos dirigentes da Varig no dia 10 em Brasília, o vice-presidente José Alencar voltou a entusiasmar os interlocutores com acenos de boa vontade e fidalguia mineira. Reeditou por completo o quadro de sinalizações de boa vontade de meses atrás, quando recebeu, logo ao assumir o Ministério da Defesa, o hoje ex-presidente da companhia Carlos Luiz Martins. Já fora da audiência, um fosso separa a prática das promessas ou frases de efeito. Mesmo tarimbado, acostumado ao jogo da política, por ter vivido os bastidores do governo passado na condição de genro do presidente Fernando Henrique, David Zylbersztajn, novo presidente do Conselho de Administração da Varig, em companhia do embaixador Marcos Azambuja e Omar Carneiro da Cunha, saíram com a sensação de ganhar um aliado.
O tempo tem ajudado a desnudar este festival de aparente solidariedade que em nada prático se traduz por parte do poder concedente. A mudança de personagens na interlocução com autoridades de Brasília apenas ajuda o governo a ganhar tempo. É como se apostasse na ¿vaspeização¿ da Varig. Falta atitude e induz-se uma desesperada busca por ¿solução de mercado¿, dificultada pela própria omissão governamental.
Ao convocar um grupo de notáveis executivos para assumir a administração da companhia, os curadores da Fundação Ruben Berta abrem mão do poder de decidir o futuro da Varig. É semelhante ao caso da fábula oriental da mãe que se sacrifica para a sobrevivência dos filhos.
A decisão pode levar o mercado erroneamente a entender, como sinalização de endosso às teses da falência do modelo da FRB, que a Varig é a responsável pelo próprio colapso financeiro e nos seus quadros não há administradores aptos a geri-la. São teses que se sobrepõem à idéia do desespero pela sobrevivência. Sem investidor forte, a empresa seguirá refém do governo.
A realidade é bem diferente do que Brasília tenta impor. O quadro funcional da Varig é um dos melhores da indústria da aviação. A empresa, apesar de toda a crise, mantém operação impecável. Tem sido competitiva e defendido bravamente a participação no mercado. Faturou em 2004 mais de R$ 8 bilhões e o lucro operacional, corroído pelo peso da dívida, foi de quase meio bilhão. Poucas possuem este tipo de musculatura.
Os novos dirigentes, ao receberem carta branca, têm também um pesado voto de confiança. Os nomes de David Zylbersztajn, Carneiro da Cunha, Marcos Castrioto de Azambuja, Eleazar de Carvalho Filho, brigadeiro Sérgio Xavier Ferolla e Sérgio de Almeida Bruni só trazem elogios. Até para preservar seus currículos, é necessário haver transparência no processo, começando pelos contratos assinados pelo grupo com os curadores. Já se sabe de seus direitos e o maior deles é a carta branca outorgada pelos curadores da FRB. É necessário que os mais interessados diretamente no processo, o Colégio Deliberante e o representante do Ministério Público em Porto Alegre, encarregado de zelar pela saúde da FRB, tenham acesso, sem restrições, ao que foi pactuado.
Os arrepios causados pela associação dos nomes escolhidos ao PSDB são fundamentados pela desastrosa intervenção realizada no final do segundo mandato do governo Fernando Henrique, quando o poder concedente foi de crueldade ímpar e provocou ¿pane seca¿ na companhia, cortando o suprimento de combustível pela estatal BR Distribuidora (na época já sob tutela da Agência Nacional de Petróleo) para impor novo conselho de administração, que passou a controlar a empresa tendo a bordo nomes como o de Mendonça de Barros e do ex-chefe da Casa Civil, Clóvis Carvalho. Se José Serra tivesse sido eleito presidente, o Ícaro da fuselagem dos aviões teria sido trocado por um azulado tucano.
Zylbersztajn esbarra agora, como frutos de laços familiares indissolúveis, nos problemas criados pela administração do avô de suas filhas que aplicou um garrote vil na maior companhia aérea do país.
Beneficiados pelos votos de confiança e pela torcida para que a Varig tenha solução, o novo Conselho não deve obstruir a transparência nos pactos até agora guardados a sete chaves, mas deve, sobretudo, compreender que os problemas financeiros são conseqüências da histórica interferência do poder concedente (cobrando seu justo ressarcimento) e respeitar a cultura empresarial e técnica que fez da Varig uma das marcas mais fortes do país.
*Presidente da Associação Brasileira de Jornalistas de Turismo e membro do Conselho Nacional de Turismo