Título: Bernardino volta ao governo do DF
Autor: Mariana Santos
Fonte: Jornal do Brasil, 20/05/2005, Brasília, p. D1
Afastado da Saúde, desde março, sob suspeitas de irregularidades, médico será assessor de Roriz
O ex-secretário de Saúde Arnaldo Bernardino está de volta ao governo. O Diário Oficial do DF de hoje deverá trazer sua nomeação como assessor especial, lotado no gabinete do governador Joaquim Roriz, para assuntos ligados a saúde, submetido ao chefe da assessoria Abdala Carim Nabut. Afastado dos holofotes desde o dia 18 de março - quando foi exonerado em meio a uma chuva de denúncias de possíveis favorecimentos ao Hospital Santa Juliana - Bernardino mostra que ainda tem prestígio no Palácio do Buriti. E ressaltou, durante uma entrevista coletiva no fim da tarde de ontem, que pertence ao grupo político de Roriz. Depois de 60 dias de férias, o retorno de Bernardino ao GDF foi definido na quarta-feira, quando o ex-secretário conversou com o governador na residência oficial. Alguns assessores de Roriz manifestaram preocupação com a nomeação, por conta das recentes denúncias. Ontem pela manhã, ao confirmar a permanência de Geraldo Maciel à frente da Secretaria de Saúde, Roriz deu sinais de estima pelo médico.
- A saúde de Brasília não estava mal, não quero condenar ninguém do passado - disse Roriz.
Bernardino recebeu jornalistas no escritório de seu advogado ontem para se defender das acusações levantadas pelo Ministério Público e pela CPI da Saúde na Câmara Legislativa. Há indícios de que o Hospital Santa Juliana tenha sido favorecido no encaminhamento de pacientes da rede pública para leitos de UTIs privadas. De acordo com um levantamento feito pelo Departamento Nacional de Auditoria do SUS (Denasus), 98,63% dos recursos destinados ao pagamento de UTIs privadas (R$ 802 mil) foram para o Santa Juliana.
O ex-secretário contesta os dados. Ele afirma que em outros dois levantamentos, aparecem percentuais diferentes: 84% na documentação do Conselho Regional de Medicina (CRM-DF) e 56% pelo Sistema do GDF (Siggo). E destacou ainda que de 2000 a 2003, 100% do dinheiro pago a UTIs foi enviado ao Hospital Santa Lúcia.
- Não sabemos até hoje porque fizeram auditoria apenas de junho a a outubro. Foi a época da hantavirose, quando houve o maior aporte de pacientes da rede pública, que ficou sobrecarregada, para a privada - afirmou Bernardino, garantindo não ser o proprietário do hospital, em Samambaia, apesar de confirmar que sua irmã, Adaíza Alves de Moura, era diretora administrativa. Os outros sócios do Santa Juliana são parentes de Alberto Madeiro Leite, médico capitão da PM e, à época, lotado no gabinete do secretário. Bernardino e Medeiro Leite são ex-cotistas da Clínica de Especialidades Médicas de Planaltina (Cemep).
Segundo Arnaldo Bernardino, o Santa Juliana começou a receber pacientes no final de 2003 - seis meses depois de ter sido inaugurado. Ele afirma que só em novembro do ano passado teve conhecimento do número de pacientes que eram encaminhados ao hospital e do volume de recursos em débito com a instituição: R$ 2,6 milhões. O ex-secretário explica que para não desfavorecer o único que recebia pacientes do SUS, os pagamentos eram feitos proporcionalmente ao valor dos débitos com os hospitais. Ele acredita que atualmente, a secretaria deve R$ 3 milhões ao Santa Juliana.
- A decisão de encaminhar paciente para hospital A, B ou C parte de cada chefe de equipe, cada médico de plantão. Havia o memorando 010/2004 que regulava isso e mandava fazer a pesquisa. Se não foi feito, as pessoas responsáveis devem ser ouvidas - disse.
Bernardino afirma que tudo é uma armação política, por não ter cumprido ''algum interesse'' do grupo dos seis distritais do PFL, Prona e PP, que constituem o bloco Pró-Brasília. Ele lembra que chegou à Secretaria de Saúde com apoio dos deputados Fábio Barcellos e Eliana Pedrosa, filiados, à época, ao PL.