Título: Punição para quem não tem padrinho
Autor: Hugo Marques
Fonte: Jornal do Brasil, 22/05/2005, País, p. A3
Resultado de 74 operações da Polícia Federal no atual governo mostra que quem é influente costuma se livrar da cadeia
O governo alega que não é necessária uma CPI para o escândalo dos Correios, porque a apuração do caso, a cargo da Polícia Federal e da Controladoria-Geral da União será suficiente. Os números sobre investigações realizadas no governo Lula, mostram, no entanto, uma realidade preocupante. Das 74 operações da Polícia Federal desde 1º de janeiro de 2003 - que levaram para a prisão 1.442 pessoas - políticos, autoridades ou chefes de organizações suspeitas não foram muito incomodados. A grande maioria dos presos é composta de auxiliares e ''bagrinhos'' das quadrilhas. Para escapar, os suspeitos de colarinho branco se beneficiam de medidas judiciais, da relação com a base do Governo no Congresso e da lentidão da Justiça. Protagonista do maior escândalo envolvendo o governo, o ex-subchefe para Assuntos Parlamentares da Presidência da República, Waldomiro Diniz, não pegou um dia de cela, mesmo filmado pedindo propina ao empresário de jogos Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira. Após o escândalo, no início do ano passado, o governo Lula publicou no Diário Oficial da União uma exoneração ''a pedido'' de Waldomiro.
Na Justiça Federal de Brasília, o nome de Waldomiro consta de uma ação criminal e um inquérito, ambos com os autos remetidos à PF para novas investigações. Consta ainda uma ação por improbidade administrativa, com 64 intermináveis ''movimentações'' do processo entre a Justiça, o Ministério Público e a PF. Enquanto isso, o sempre bronzeado Waldomiro cuida de seu novo plantio de laranjeiras na chácara perto de Brasília e toma sol nas entrequadras da capital.
O presidente do PP, deputado Pedro Corrêa (PE), também não tem do que se se queixar.
Flagrado em conversas comprometedoras com um empresário que adulterou combustíveis, Corrêa teria contado com a colaboração e amizade do conterrâneo e presidente da Câmara, Severino Cavalcanti (PP), para se livrar de punição no Congresso. A Câmara arquivou sindicância que apuraria o caso.
No ano passado, a PF realizou operação e prendeu uma quadrilha que fraudava licitações dentro do Tribunal de Contas da União. Uma das empresas envolvidas era a Confederal, que pertence ao ministro das Comunicações, Eunício Oliveira.
Os últimos registros da Justiça Federal não apontam processos envolvendo a Confederal com irregularidades em licitações no TCU. É ao Ministério das Comunicações que está subordinada a Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos (ECT), onde o chefe do Departamento de Administração e Compras de Material, Maurício Marinho, foi filmado embolsando propina.
A impunidade é a regra. O ex-governador de Roraima, Neudo Campos, foi preso em 2003 por desvio de dinheiro da folha de pagamentos do Estado. Os desvios, segundo laudo econômico-financeiro da Polícia Federal em Roraima, chegam a R$ 80 milhões. No ano passado, já fora da cadeia, Neudo Campos concorreu ao cargo de prefeito de Boa Vista. Perdeu para Tereza Jucá, a mulher do ministro da Previdência, Romero Jucá, também investigado por denúncias de uso irregular de recursos públicos.
Apontado como o cabeça da quadrilha que quebrou ilegalmente sigilo bancário e fiscal, o banqueiro Daniel Dantas, do Grupo Opportunity, nem viu a cor das celas da PF. A Justiça Federal em São Paulo negou os pedidos de prisão de Dantas.
Só quem pegou alguns dias de cela foram os espiões da Kroll Associates, que quebraram sigilo de políticos e empresários a mando do banqueiro. A PF não conseguiu autorização para fazer uma perícia no disco do computador do Opportunity, apreendido com autorização da própria Justiça Federal.
Entre os poucos ainda estão presos estão o mega-contrabandista chinês Law King Chong e o juiz federal Luiz Carlos da Rocha Mattos, preso durante a Operação Anaconda por envolvimento com a venda de sentenças. A quadrilha dos ''vampiros'', que desviava dinheiro de licitações do Ministério da Saúde, há muito deixou a cadeia. Apontado como suspeito de integrar um grupo que fraudou R$ 103 milhões em licitações no Amapá, o empresário Fernando de Souza Felxa Ribeiro assumiu sua vaga no Senado Federal.