Título: Sérgio Pardellas e Sérgio Prado
Autor:
Fonte: Jornal do Brasil, 21/05/2005, País, p. A3

Tambaqui evita indigestão no governo

A noite de quinta-feira quase causa indigestão na Granja do Torto. Num jantar de quase 3 horas para mais de 90 empresários, ministros e conselheiros do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social quinta-feira na Granja do Torto, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva demonstrou desconforto com a crise no relacionamento com o Congresso, hoje o principal problema de seu governo.

À mesa, as opções eram mais agradáveis do que as que aparecem no Congresso Nacional. No cardápio, ironicamente, um cordeiro argentino, presente do ''muy amigo'' Néstor Kirchner, e um tambaqui pescado recentemente por Lula no Lago Paranoá, em Brasília.

- Eu que pesquei, eu que pesquei - gabou-se o presidente aos comensais.

Apesar de encruzilhado entre dar apoio a mais um suspeito de corrupção, ou perder o auxílio do PTB no Congresso, o presidente disse estar ''sereno'' diante da ameaça de abertura de uma CPI para investigar a propina nos Correios, repetindo o que disse durante encontro com governadores no dia anterior: a negociação com os aliados terá limites.

- Não irei fazer tudo pela reeleição - acrescentou.

Lula também sinalizou que irá seguir a recomendação do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social e ampliar a composição do Conselho Monetário Nacional, uma reivindicação antiga dos representantes da indústria. No entanto, reforçou: a política econômica não será alterada.

Acomodados em nove mesas revestidas de madeiras - ipê, mogno e jacarandá - produzidas na própria Granja, o empresariado gostou do que ouviu. E o Planalto interpretou como ''muito positivo'' o encontro que acabou servindo para aplacar o descontentamento do setor um dia depois de anunciado o nono aumento consecutivo da taxa básica de juros.

Uma das primeiras a chegar, Viviane Senna, presidente do Instituto Ayrton Senna, presenteou Dona Marisa Letícia com um vaso de flores, segundo ela, para decorar o ambiente na residência presidencial.

Coube ao presidente da Vale do Rio Doce, Roger Agnelli, o brinde de abertura do jantar ''em homenagem ao presidente Lula''. Em rápido discurso, Agnelli se disse honrado por integrar o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social e ''poder contribuir com os destinos do país''.

Lula não discursou mas ao fazer uma breve saudação aos participantes do encontro, disse estar ''entusiasmado'' com o trabalho do ministro Jaques Wagner à frente do Conselho. E que embora não tenha muita visibilidade, o Conselho tem ''contribuído para a formulação de políticas pelo governo''.

- Às vezes o trabalho não aparece porque acabamos incorporando as sugestões do Conselho a outras decisões. Mas saibam que estamos aproveitando e muito as recomendações - disse.

Depois do jantar, Lula reuniu empresários e conselheiros para a tradicional fotografia no jardim. Ao fim da noite, recebeu um a um para uma conversa ao pé do ouvido na varanda. Foi quando recebeu de Gabriel Jorge Ferreira, da Confederação Nacional da Instituições Financeiras, a sugestão para que acelerasse a democratização do Conselho com a instalação das Câmaras Setoriais do CMN, de onde seriam canalizadas as contribuições de empresários e sociedade civil. É que embora o presidente tenha sinalizado no jantar que irá endossar a recomendação do Conselho pela ampliação da composição do CMN, é provável que a alteração seja feita por meio de projeto de lei complementar, o que demandaria tempo para sua implementação.