Título: Levantando acampamento
Autor: Ana Paula Verly
Fonte: Jornal do Brasil, 21/05/2005, Rio, p. A13

Ministério da Saúde anuncia criação de 500 vagas de atendimento ambulatorial para substituir hospitais de campanha

Depois de realizar mais de 35 mil atendimentos em quase dois meses nos hospitais de campanha, a Marinha e a Aeronáutica levantaram, literalmente, seus acampamentos ontem. A atuação na frente de batalha contra a crise na saúde, iniciada com a intervenção em seis hospitais pelo Ministério da Saúde, foi aprovada pela população, que já sente a consequência da falta do serviço. Ao meio-dia terminou a distribuição das senhas na unidade da Marinha, no Campo de Santana, no Centro, e os pacientes se deslocaram para o Hospital Souza Aguiar, que ficou superlotado. Para suprir a média diária de 500 consultas feitas pelos militares, o coordenador do Comitê Executivo de Gestão dos Hospitais Requisitados, Sérgio Côrtes, anunciou que a partir de segunda-feira seis hospitais vão atender essa demanda. - Abriremos 500 novas vagas ambulatoriais para que a população não sinta o impacto do fechamento dos hospitais de campanha - anunciou Côrtes, que não descartou a possibilidade da ajuda das Forças Armadas ser solicitada novamente.

Além dos hospitais requisitados pelo Ministério da Saúde - Lagoa, Ipanema, Andaraí e Cardoso Fontes -, serão abertas vagas também no Instituto Nacional de Trauma-Ortopedia e no Hospital dos Servidores do Estado, no Centro.

A Aeronáutica foi a primeira a armar suas tendas, em 21 de março, na Barra da Tijuca. Até ontem, foram realizados 12.433 atendimentos de cinco especialidades - inclusive odontologia -, distribuição de 125.070 medicamentos e cerca de três mil exames, sendo 334 preventivos de câncer de colo do útero, com cerca de 40 diagnósticos positivos.

- Tivemos um fluxo grande de vários municípios no início, que depois se estabilizou na Zona Oeste, desafogando os hospitais Lourenço Jorge, na Barra, e Cardoso Fontes - afirmou o major Gilberto do Amaral Teixeira, comandante da unidade, acrescentando que nas primeiras semanas chegaram a receber cerca de 500 pessoas por dia, até baixar à última média de 150.

Primeira a buscar ontem o serviço da Aeronáutica para a mãe, de 73 anos, com pressão alta, a dona de casa Marinete Vasques da Silva, moradora da Cidade de Deus, aproveitou a ocasião e se consultou com um ginecologista, temendo a espera de três meses nos postos do município:

- Acho uma pena terminar. Se não fosse este hospital, ela estaria padecendo na fila do Lourenço Jorge, onde não dão a mínima para os doentes - criticou, ao lado da mãe, que tomava soro e oxigênio.

A doméstica Maria das Graças Oliveira, moradora da Taquara, também aproveitou o último dia:

- Vim pela segunda vez por causa de uma dor de coluna. Na anterior, tratei da pressão e descobri que corria risco de sofrer derrame. Graças a um eletrocardiograma e aos remédios que me deram aqui, estou melhor.

A calmaria na unidade da Barra - procurada por apenas 110 pessoas - não se repetiu na do Centro, que distribuiu 425 senhas. O movimento no local foi mais intenso desde o primeiro dia - 28 de março -, quando a procura foi de quase três mil pessoas. Até ontem, cerca de 23 mil atendimentos e 11 mil exames foram registrados.

- Passamos momentos difíceis, mas de muita alegria por conseguirmos proporcionar a uma clientela tão carente atendimento médico com alto nível de excelência - festejou o vice-almirante Helton José Bastos Setta, diretor de Saúde da Marinha.

Informada por conhecidos sobre essa qualidade, a dona de casa Adalgiza Francisca Lopes, 63 anos, não pôde confirma-la, pois chegou à tarde.

- Escutei que ia acabar e corri para cá, porque já fui a várias clínicas e não resolveram a minha enxaqueca - lamentou, decidindo tentar a sorte no Souza Aguiar.

A mesma decisão Sidinei Ferreira, morador de Bonsucesso, já havia tomado, duas horas antes.

- Estive aqui há alguns dias e não tinha tanta gente - comparava.

A observação era consequência da desativação, que, segundo o presidente do Conselho Distrital de Saúde da Zona Oeste, Adelson Alípio, tende a se agravar.

- Segunda-feira vamos ver o caos. As novas vagas são teoria: não vão resolver o problema - prevê, ressaltando que a solução para crise é ampliar o atendimento da rede básica, o programa Saúde da Família e implantar o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), que, de acordo com o secretário de Atenção à Saúde do Ministério da Saúde, Jorge Solla, deverá acontecer em junho. A Policlínica Moncorvo Filho, do Exército, no Centro, também encerrou ontem, com 126 atendimentos, a oferta de consultas, iniciadas em março.