Título: Opulência e escassez
Autor:
Fonte: Jornal do Brasil, 24/05/2005, Opinião, p. A10
O lixeiro Arlindo José de Souza, 40 anos, o trabalhador que, por ser analfabeto, não pôde ter acesso às obras expostas na Bienal Internacional do Livro, constitui um exemplo eloqüente do tamanho e da profundidade da tragédia social brasileira. A história de Arlindo, conforme se viu no relato dos repórteres Alexandre Fontoura e Ana Carolina Alves, publicado ontem no Jornal do Brasil, ajuda a cristalizar a perversidade da exclusão a que são submetidos tantos cidadãos de bem. Ele, afinal, apesar da particularidade de não saber ler num evento que comemorou o balanço de mais de 2 milhões de livros vendidos, é alguém mergulhado num universo de analfabetos que chega a 30 milhões de pessoas. Tal exemplo, contudo, sugere lições relevantes para o necessário debate sobre o país e as políticas de inclusão social aqui desenvolvidas nas últimas décadas. Neste terreno, o Estado brasileiro ou tem padecido de uma especial predileção pelos programas assistencialistas de curto prazo - sempre balizados por deficiências congênitas - ou se torna um palco sombrio de benefícios concedidos a poucos - graças ao desvio dos recursos, enlameados pela corrupção ou pela ineficiência administrativa.
As últimas semanas acrescentaram constrangedores exemplos ao embaraçoso desvirtuamento dos objetivos fundamentais que devem balizar a ação pública. A distorção revela-se, sobretudo, no desgaste moral sofrido por Congresso, assembléias legislativas e câmaras municipais - instâncias democráticas consolidadas por meio do voto, mas transformadas em balcão de negócios cujos dividendos são restritos a meia dúzia de apaniguados.
A terra arrasada da exclusão social não surge, portanto, somente das políticas ineficientes. É resultado também dos fantasmas da corrupção que rondam a administração pública e da privatização do Estado em nome dos interesses espúrios arraigados em todos os poderes da República. Convém imaginar um modelo radicalmente diverso de país. Um projeto real de inclusão social pressupõe conduzir, de maneira racional, um contínuo processo de mudanças estruturais.
Basta seguir três bem-sucedidos exemplos verificados nos últimos anos, responsáveis por saltos gigantescos da sociedade brasileira.
A primeira grande mudança se deu na transformação do Brasil numa das maiores democracias do mundo. Em 1989, quando os brasileiros escolheram o primeiro presidente da República por votação direta depois da ditadura militar, havia, então, 82 milhões de pessoas aptos a votar. No ano passado, o número elevara-se para cerca de 120 milhões. Essa evolução começou a consolidar-se quando o país iniciou o processo de informatização do alistamento eleitoral. A tecnologia, simbolizada pela urna eletrônica, possibilitou a modernização da votação e da apuração. Com ela, praticamente desapareceram os históricos atrasos que transtornavam os eleitores e, sobretudo, minaram substancialmente as tentativas de fraudes.
A conquista da estabilidade monetária e a derrota da inflação - a principal chaga de duas décadas - constituíram o segundo grande programa de inclusão social brasileiro. A vitória veio sem confiscos tanto autoritários quanto inúteis. As empresas recuperaram transparência contábil e as famílias, o direito de administrar o orçamento sem sobressaltos. Os maiores vencedores foram os mais pobres, que passaram a conviver com preços menos voláteis nos transportes e na cesta básica de alimentos.
Como terceiro exemplo, convém lembrar a privatização das operadoras de telefonia. De julho de 1998 - quando se realizou o leilão de 27 empresas que compunham o Sistema Telebrás - até hoje, a telefonia sofreu revolução. O número de telefones fixos quase triplicou, saltando de 15 milhões para cerca de 40 milhões. Nos celulares, a multiplicação foi ainda maior. Havia pouco mais de 1 milhão espalhados pelo país. Hoje são mais de 65 milhões de celulares. Não bastasse a evidência dos números, a privatização permitiu a democratização de oportunidades propiciada pelo crescente e cada vez mais veloz acesso à internet, à informação e à educação.
São avanços com os quais gente como Arlindo José de Souza não pôde desfrutar por completo. Este é o desafio: arrefecer a memória de uma terra em que opulência e escassez convivem lado a lado.