Título: Conversações em Minas
Autor: MAURO SANTAYANA
Fonte: Jornal do Brasil, 25/05/2005, País / Coisas da Política, p. A2
Desanuvia-se a paisagem. Passada a euforia do comício do Anhembi, em São Paulo, em que o sr. Fernando Henrique Cardoso esqueceu as regras do bom tom, bastaram algumas horas para que o sr. Eduardo Azeredo promovesse o jantar de segunda-feira em Belo Horizonte. Embora possam circular outras versões, é evidente que se tratou de chamar o ex-presidente Fernando Henrique à moderação. Os governadores Geraldo Alckmin e Aécio Neves, e o prefeito José Serra, com a responsabilidade da administração de grandes unidades federadas, sabem que tumultuar hoje o processo político é convocar surpresas e açular os sustos. Segundo a imprensa, o ex-presidente Fernando Henrique pretende ser candidato ao governo de São Paulo. Isso lhe daria visibilidade política, e lhe permitiria articular apoios, a fim de se pôr como tertius, em caso de impasse na hora da convenção nacional para a escolha do candidato do PSDB à Presidência da República.
O governador de São Paulo comporta-se com cautela. Ele e José Serra não parecem dispostos a carregar o andor do sr. Fernando Henrique. Alckmin, que sabe cultivar com inteligência a modéstia, vem enfrentando dificuldades no governo, mas mantém boa popularidade e respeito no Estado. Não podendo ser candidato a mais um mandato, será o grande eleitor de seu Estado. Se não for candidato à Presidência, seu apoio será decisivo tanto na esfera estadual quanto na federal. Aécio, candidato à reeleição em Minas, sempre foi moderado na oposição ao governo federal, embora firme defensor da descentralização de recursos orçamentários.
Assim estão as nuvens no céu deste outono - mas poderão alterar-se entre um outono e outro.
Esses movimentos do processo político não alteram o quadro de fundo, o da crise do Estado republicano. A urgência da restauração do pacto federativo vem sendo discutida por muitos governadores e por integrantes do Senado. Para que isso ocorra é preciso demolir quase toda a estrutura institucional levantada nos últimos 40 anos. Em suma: é necessária nova Constituição. O problema está nestes meses que antecedem as eleições gerais de 2006, que dificultam o processo. Por isso mesmo há quem pretenda incluir, em sua plataforma eleitoral, o compromisso de convocar assembléia nacional constituinte originária e exclusiva para a elaboração da nova Carta Política em 2007.
Enquanto isso não ocorre, e a fim de contornar o conflito federativo, os governadores se organizam para recuperar, mediante acordos com a União, as parcelas de recursos de que foram expropriados seus Estados, por meio de ação de drenagem promovida pelo governo central durante o mandato do sr. Fernando Henrique e mantida pela equipe econômica atual. Têm sido freqüentes as conversas e consultas entre os governadores dos estados, eleitos pelos diversos partidos, mas enfrentando os mesmos problemas. Nessas conversas se consolida a convicção de que é preciso lutar pela autonomia dos estados e municípios.
Todas essas reflexões não servem para abrandar o clima de mal-estar da cidadania diante dos fatos de corrupção explícita. O encontro de Belo Horizonte serviu, no entanto, para que se refreie o ânimo belicoso do ex-presidente e de seus fiéis seguidores no Senado e na Câmara dos Deputados. A escalada verbal - e nisso é bom constatar que a iniciativa dos insultos não partiu do governo Lula - poderia levar a crise às ruas, com a perda de seu controle pelas instituições partidárias. As ruas nem sempre dizem o que esperamos ouvir. As massas têm a sua lógica própria e são animadas pelos sentimentos da hora.
Minas volta - e não só com o encontro de segunda-feira - ao centro das articulações políticas, com a presença em Belo Horizonte do sr. Itamar Franco, que ontem manteve reuniões com o PMDB e hoje conversará com o governador Aécio Neves, antes de encontrar-se com José Alencar. É a realidade federativa: os mineiros buscam entender-se, antes de se entenderem com os outros.