Título: Fraude teve ajuda de dentro do Cespe
Autor: Soraia Costa
Fonte: Jornal do Brasil, 26/05/2005, Brasília, p. D5
Líder da máfia do concurso se diz um especialista e confessa ter colaboradores no Centro de Seleções
O técnico judiciário Hélio Garcia Ortiz, que é bacharel em direito, confessou que participa de fraudes em concursos e vestibulares desde 1981, afirmou ter-se especializado em estudar para fazer as provas no lugar de outras pessoas, com documentos falsificados. Em seu depoimento, que durou cerca de 10 horas e só terminou na madrugada de ontem, Ortiz explicou como as fraudes eram feitas e confirmou a participação no esquema de funcionários do Centro de Seleção e Promoção de Eventos (Cespe). Weber Teixeira Neto, advogado de Ortiz, negociou a apresentação de seu cliente com o delegado da Divisão Especial de Repressão ao Crime Organizado da PCDF, Cícero Monteiro. Após ser avisado sobre a Operação Galileu, que prendeu vários integrantes da quadrilha no domingo, Ortiz fugiu, abandonando seu carro na Quadra 15 do setor Park Way. Ele e a mulher Edina Ortiz se embrenharam no mato, mas como Edina não conseguiu atravessar um riacho, Hélio a abandonou e seguiu sozinho.
Edina Ortiz foi encontrada chorando no mato, após utilizar o celular, que foi rastreado. Ela foi presa na noite de domingo e Hélio se escondeu em um hotel de Taguatinga, de onde fez contato com seu advogado. O acusado se entregou na tarde de quarta-feira e prestou depoimento até às 3h20 da madrugada de ontem. Por ter se apresentado espontaneamente, Ortiz pode ter a pena reduzida em até dois terços.
Dos 27 suspeitos de envolvimento no núcleo da quadrilha, apenas seis continuam foragidos. Cinco mandados de prisão serão cumpridos pela Polícia Federal, pois os suspeitos estão fora do DF. A polícia não confirmou a prisão do major Bonaldo Barbosa, secretário de Educação de Valparaíso (GO). Ele a esposa, Elisabeth, continuam sendo procurados.
Até a noite de ontem, a PCDF havia cumprido 81, dos 104 mandados de prisão preventiva emitidos pelo juiz da Terceira Vara Criminal do TJDF. Ao todo, 50 pessoas já tiveram a liberdade provisória decretada. Os 36 candidatos a agente penitenciário federal, presos durante a prova da primeira fase do concurso, no domingo, e os 14 funcionários do Tribunal de Justiça do DF, que confessaram terem conseguido irregularmente suas vagas no último concurso para o órgão, realizado em 2003.
Todos os integrantes do núcleo da quadrilha continuam detidos e são acusados de estelionato, formação de quadrilha e corrupção ativa. A pena por formação de quadrilha vai de um a três anos de prisão. O crime de corrupção ativa prevê pena de dois a 12 anos para quem corrompe funcionários públicos.
Por estelionato (artigo 171), os acusados - vendedores e compradores de vagas -podem ficar presos de um a cinco anos, além de multa definida pelo juiz.
Ortiz, porém, já tem em sua folha corrida processos de estelionato, falsificação de documento público, uso de documento falso e falsificação de documento particular.