Título: Cinco minutos de correria
Autor: Daniel Pereira
Fonte: Jornal do Brasil, 27/05/2005, Brasil, p. A3
Quarenta e cinco minutos de a CPI dos Correios ter se tornado um fato consumado, os corredores do Congresso se esvaziaram. Nem mesmo os governistas interessados em articular novas ações da base para conduzir a CPI permaneceram na Casa. Movimento, só até os últimos cinco minutos de terça-feira passada enquanto governo trabalhava na tentativa de barrar CPI dos Correios. Telefonemas, reuniões a portas fechadas e, promessa de liberar algumas emendas engavetadas, não foi suficiente para fazer com que a lista de signatários diminuísse para os 170 nomes necessários para tornar a CPI inviável.
Um encontro esvaziado da bancada do PT no fim da tarde de terça-feira já mostrava que as negociações não seriam fáceis. O ex-líder do PT na Câmara, Professor Luizinho (SP), não quis comentar a ausência dos colegas.
- Temos alguns aliados comprometidos. Acho que vai dar - afirmou o deputado designado para negociar a retirada de alguns signatários.
No corredor da sala 13 de Comissões da Câmara, o amigo do Professor, deputado Virgílio Guimarães (PT-MG) - suspenso na semana passada por ter lançado candidatura própria para presidência da casa - confirmou sua assinatura.
- O requerimento é tendencioso. Mas estamos tratando de um parlamentar envolvido com corrupção é uma acusação grave, e por não ter outra opção vou manter minha assinatura - afirmou.
Outros colegas de legenda como Maninha (DF), Dr. Rosinha (PR), Ivan Valente (SP), Paulo Rubem (PE) também se mantiveram firmes e nem mesmo apareceram na reunião.
Pouco depois do anúncio de que o senador Eduardo Suplicy (PT-SP) assinara a CPI, uma nova reunião de líderes movimentou os corredores do Congresso. Desta vez, o ponto de encontro foi o gabinete do deputado Arlindo Chinaglia (PT-SP). Lá, estavam os líderes José Borba (PMDB-PR), José Múcio (PTB-PE), Sandro Mabel (PL).
Às 23h20, Chinaglia jogou a toalha e disse que faltavam retirar nove signatários. Até que uma voz de dentro do gabinete da liderança do governo gritou:
- Acho que pode dar sim. Volte logo.
Era alarme falso. Depois de todos os esforços ainda faltavam ser retirados dois nomes. Com os ponteiros avançando no relógio, não era possível prosseguir as negociações ali.
Às 23h40, Chinaglia e outros líderes se dirigem em comitiva até o plenário do Senado. Lá, a oposição já aguardava a chegada dos governistas com a certeza de vitória.
- O governo tem de admitir logo que a CPI vai acontecer porque é um clamor da opinião pública. Não tem mais para onde correr - avaliou o líder do PSDB, na Câmara, Alberto Goldman (SP).
Com a provocação da oposição e ainda empolgado com a possibilidade de conseguiu outras duas desistências, professor Luizinho se desesperou. Enquanto Chinaglia negociava com a mesa o recebimento condicionado de algumas assinaturas, Luizinho disparava telefonemas de seu celular.
- Renildo, você não pode fazer isto com a gente. Pelo amor de Deus - gritava.
Nem mesmo evocando Deus, Luizinho conseguiu. Aos dois minutos da meia-noite de terça-feira, o desanimo tomou visivelmente o semblante de Chinaglia, que segurava as desistências condicionadas do PMDB e do PSB. Para ele, o jogo já estava perdido. Com as badaladas da meia-noite, os telefonemas se cessaram. Só se ouviam gritos da oposição questionando alguns nomes retirados e ainda os flash das câmaras fotográficas registrando a derrota do governo.