Título: Rio barganhou por royalties
Autor: Sérgio Pardellas
Fonte: Jornal do Brasil, 28/05/2005, País, p. A3
BRASÍLIA - Na noite da quarta-feira, enquanto o governo se mobilizava para tentar impedir a CPI dos Correios, integrantes da ala oposicionista do PMDB propuseram ao chefe da Casa Civil, ministro José Dirceu, e ao secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Bernard Appy, a retirada de 24 assinaturas do requerimento de instalação da comissão em troca de vantagens financeiras não necessariamente pessoais, mas para os Estados. O Jornal do Brasil apurou que, por volta das 22h, Appy foi procurado pelo deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ). Falando em nome do secretário de Governo do Rio, Anthony Garotinho, o parlamentar afirmava ter em mãos um documento com 18 nomes de parlamentares que se disporiam a retirar o endosso ao requerimento da CPI caso o Planalto os atendessem em três pleitos: a liberação de R$ 350 milhões das contas B do Banerj, a antecipação de R$ 1 bilhão de pagamentos dos royalties do petróleo para o Estado e a construção de uma refinaria no Rio.
Naquela altura, nas contas do Planalto bastaria a desistência de nove parlamentares para que a CPI fosse abortada. Mas o governo considerou o preço alto e não fechou o acordo. Depois de ouvir a proposta de Cunha, o secretário de Política Econômica telefonou para o ministro José Dirceu que desautorizou a negociação. Ao saber da recusa, Cunha picou em pedacinhos o documento com os 18 nomes
- Eu fiz proposta? Imagina, isso não existe. Fui na verdade é procurado por diversas pessoas ligadas ao governo pedindo que retirasse as assinaturas - contradisse o deputado Eduardo Cunha.
Horas antes, Dirceu se reuniu no Planalto com o deputado Geddel Vieira Lima (PMDB-BA), de quem recebera proposta semelhante no conteúdo, mas divergente nos valores e no número de assinaturas. Além de deixar de ser um dos signatários do documento pedindo a criação da CPI, o peemedebista convenceria cinco parlamentares a agir assim: Mendes Ribeiro Filho (PMDB-RS), Carlos Eduardo Cadoca (PMDB-PE), Waldemir Moka (PMDB-MS), Jorge Alberto (PMDB-SE), e o presidente do PMDB, Michel Temer (PMDB-SP).
Em contrapartida, queria ver fechado um contrato com a Construtora RG no valor de R$ 5 milhões para obras na Infraero, estatal que administra os aeroportos. A conversa, que durou mais de três horas, foi testemunhada pelo ministro Jaques Wagner, do Desenvolvimento Econômico e Social. O JB tentou na tarde de ontem contato telefônico com Geddel, mas não obteve sucesso.
A negociação seria sacramentada ainda naquela noite numa reunião na residência de Temer em Brasília, com a presença de Garotinho. Dirceu recusou-se a comparecer. Naquele instante, apostava no recuo de 20 petistas e seis parlamentares do PC do B, suficientes para sepultar a CPI. A informação foi confirmada por dois auxiliares diretos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Os bastidores do dia em que foi lido o requerimento para a instalação da CPI da propina nos Correios contrariam a versão do ex-governador Garotinho de que teria sido assediado por Dirceu durante a semana. Apontado como peça-chave para sepultar a investigação dos Correios, Garotinho lidera um grupo de 20 deputados que assinaram o pedido de abertura da CPI.
- Nos últimos dias o José Dirceu ligou quatro vezes para mim fazendo um apelo. E eu disse a ele: ''Olha, Zé, não há a menor possibilidade de que intervenha'' - afirmou Garotinho em entrevista na quinta-feira.
Na terça-feira, em ato partidário no Hotel Glória no Rio, o secretário de Governo contou que um ministro ligou para ele ''suplicando pelo apoio contra a instalação da CPI dos Correios''. Na ocasião, porém, não revelou o nome do interlocutor, a quem disse ter chamado de ''cara-de pau''.