Título: Villepin assume Gabinete da França
Autor:
Fonte: Jornal do Brasil, 01/06/2005, Internacional, p. A7
Rejeição francesa à Carta européia provocou ainda a entrada de rival político de Chirac no ministério do Interior
PARIS - Dois dias após o referendo no qual a França rejeitou a Constituição Européia, instalando uma crise governamental no país, o presidente Jacques Chirac nomeou ontem Dominique de Villepin como primeiro-ministro, em substituição a Jean-Pierre Raffarin. E para dirigir o ministério do Interior - até então sob o comando de Villepin - o escolhido foi Nicolas Sarkozy, presidente da direitista União por um Movimento Popular (o partido no poder), rival de Chirac e que também disputava o cargo de premier.
Villepin pertence ao círculo de políticos de confiança de Chirac e adquiriu grande popularidade em 2003, quando era o ministro das Relações Exteriores no momento em que a França se opôs à ofensiva militar no Iraque. Já Raffarin, que liderava o Gabinete desde 2002, se tornou extremamente impopular há meses, ao realizar reformas educacionais e previdenciárias que ainda não surtiram efeito no alto índice de desemprego, que atinge mais de 10% da população ativa.
Debilitado pelo referendo - no qual os franceses decidiram punir o governo pela má administração - Chirac optou pela continuidade ao escolher um novo premier. O objetivo é conservar uma posição cômoda e uma margem de manobra suficiente nos quase dois anos que lhe restam de mandato.
No entanto, os partidários do ''não'' à Constituição consideram que a nomeação de Villepin, um político conservador com ar de nobre e pouco conhecimento da França ''profunda'', não responde às expectativas dos cidadãos, que desejam uma política mais social.
- O novo primeiro-ministro não terá nenhuma margem de manobra econômica, financeira e social para responder às esperanças dos franceses - criticou Jean Marc Ayrault, líder do Partido Socialista na Assembléia Nacional.
A oposição também lembrou que Villepin nunca foi candidato em eleições na França, sequer na esfera municipal, uma falta de legitimidade popular criticada também por Sarkozy, há alguns dias.
Em meio à crise política, Chirac focou a Constituição Européia em um pronunciamento público ontem à noite. Ele prometeu aproveitar ''todas as oportunidades possíveis'' para retomar, nas próximas semanas e meses, ''a grande ambição do bloco'', junto com os outros 24 países-membros da União Européia.
- A Europa multiplica nossas forças e não podemos querer conservar nosso modelo social e econômico e defender nossos valores no mundo sem manter toda nossa posição na Europa - justificou.
Reconhecendo e ''respeitando'' a rejeição de 55% dos eleitores à Carta, Chirac alertou que o ''não'' francês ''abriu um período de dificuldades e incerteza'' para a França e para a Europa.
- Mas o resultado não deve ser interpretado como uma rejeição ao projeto europeu, e sim como a expressão de um sentimento de insatisfação e insegurança perante o mundo de hoje - acrescentou, explicando que ''o emprego, a unidade em torno do interesse nacional e a recuperação da vocação européia'' são as prioridades dos 22 meses restantes de sua administração.
E foi ''neste espírito de união'' que pediu a Sarkozy que entrasse no Executivo, como ''ministro de Estado'', confirmou o presidente.
Antes de deixar o Palácio de Matignon, Raffarin garantiu estar orgulhoso das decisões tomadas durante os três anos à frente do governo e que sua renúncia ao cargo era ''independente'' do referendo.
Ontem, o euro registrou uma ligeira recuperação frente ao dólar e fechou cotado em US$ 1,2331.