Título: Lula parte para o ataque à oposição
Autor: Daniel Pereira e Sérgio Pardellas
Fonte: Jornal do Brasil, 31/05/2005, País, p. A3
De volta ao Palácio do Planalto, depois da viagem à Ásia, Luiz Inácio Lula da Silva mandou um recado claro à oposição. Disse ter voltado ao país com ''mais gás e mais otimista'' e que ''quem estiver torcendo para o fracasso do Brasil quebrará a cara''. - Pode ficar certo Luiz (Fará Monteiro, jornalista e apresentador do programa) que vai quebrar a cara. Não existe espaço para política menor neste país - afirmou no programa de rádio Café com o Presidente.
Segundo assessores diretos do presidente, a declaração teve como alvo preferencial líderes oposicionistas, mas também serviria para aliados, que criam problemas para o Planalto. Neste campo, entram parlamentares como o senador Fernando Bezerra, líder do governo no Congresso. Ele disse à revista Veja que está descontente com a forma com que o PT tratou um indicado seu aos Correios e assinou o pedido de CPI.
Este fato gerou desconforto a ponto de um senador petista dizer que a permanência de Bezerra na liderança é insustentável. Ontem, havia a expectativa de que o parlamentar petebista entregasse o cargo. Mas ele negou e hoje tem uma reunião com Lula no Planalto.
Ontem, em reunião com ministros do núcleo político do governo, Lula repetiu que não teme a CPI. E pedirá ao PT e aos partidos aliados que façam a investigação, doa a quem doer. Como o desgaste é grande, o presidente da República não estaria disposto a passar a imagem de que sua gestão acoberta a corrupção.
- Não tenho nada a temer. O que eles (oposição) querem é palanque para 2006 - teria dito Lula a um ministro.
Em conversa ontem pela manhã com o ministro da Coordenação Política, Aldo Rebelo, Lula ponderou que a CPI tornou-se a única bandeira da oposição, carente de um nome forte para as eleições do ano que vem. Por isso, para evitar a montagem do suposto palanque eleitoral, a orientação é para que os governistas se empenhem no sentido de restringir a CPI ao suposto esquema de corrupção dos Correios. Passo nesse sentido foi dado com a apresentação de uma questão de ordem à Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara.
Como num esquema de jogo bem ensaiado, o presidente do Congresso, Renan Calheiros (PMDB) foi aos holofotes falar uma linguagem afinada com o que pensa o chefe do Executivo. Ou seja, que a base de apoio ao Planalto pode sim controlar a presidência e a relatoria da investigação. Mas defendeu o fechamento de um acordo com a oposição, que ficaria com um dos postos capitais.
- Não sei se o governo vai querer o controle da CPI. Qualquer coisa nesse sentido poderia parecer à opinião pública que o governo não quer esclarecer, não quer investigar - disse Renan.
A oposição discorda. Segundo o líder do PSDB no Senado, Arthur Virgílio (AM), o rateio dos postos tem de seguir o modelo adotado na CPI mista da Terra, presidida pelo senador Álvaro Dias (PSDB-PR) e relatada pelo deputado João Alfredo (PT-CE). Na CPI dos Correios, haveria uma inversão de funções.
Os oposicionistas dizem que têm direito à relatoria ou à presidência porque o bloco PSDB-PFL tem maioria no Senado. Alegam que é preciso respeitar o critério da proporcionalidade. Líderes do governo cogitavam ontem a possibilidade de PT e PMDB também formarem um bloco para ficar em maioria no Senado. Renan negou a possibilidade de tal acordo.
Apesar do momento turbulento por que passaram o governo, ministros e base governista na última semana, nas audiências ontem com ministros Lula quis transmitir a impressão de que se respira tranquilidade no Planalto. Além de liberar a investigação, pediu celeridade no envio de projetos de interesse do governo ao Congresso.
Ele recebeu também os ministros da Casa Civil, José Dirceu, da Fazenda, e Antonio Palocci Filho. No início da noite, recebeu os ministros da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, Waldir Pires (Controladoria Geral da União) para uma avaliação das investigações em andamento pela Polícia Federal, o Ministério Público e a Controladoria-Geral da União nos Correios e no IRB.