Título: ''Situação é explosiva'', alerta ONG
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Fonte: Jornal do Brasil, 02/06/2005, Internacional, p. A9

International Crisis Group pede que missão de estabilização seja reformulada

PORTO PRÍNCIPE - A situação no Haiti, principalmente na capital Porto Príncipe, é explosiva e é preciso redefinir a missão dos capacetes azuis da ONU - comandados pelo Brasil - para que se possa cumprir a lei no país, afirma um estudo do organismo independente International Crisis Group.

Publicado esta semana, o informe destaca que a força de estabilização das Nações Unidas no Haiti (Minustah), com seus 7.400 soldados de paz e policiais civis, conseguiu conter a violência, mesmo que o país ainda esteja submerso numa ''profunda crise política, econômica e social''.

Considerando a situação dos direitos humanos como preocupante, o estudo recomenda à ONU aumentar a quantidade de policiais internacionais civis de 1.622 para 4.600. Também aconselha a criação de uma força de intervenção rápida na Minustah e o aumento de suas capacidades de informação.

O embaixador José Alfredo Graça Lima, chefe da Missão do Brasil junto às Comunidades Européias, em Bruxelas, comentou o problema do Haiti ontem, quando a Minustah completou seu primeiro aniversário, em meio a tantos desafios.

- Defendemos a promoção de iniciativas que não se limitem ao equacionamento dos aspectos de segurança presentes na crise, mas que permitam aos haitianos trabalhar no encaminhamento das soluções para seus problemas e no fortalecimento das instituições de seu país - ressaltou Graça Lima.

Segundo o International Crisis Group, muitas pessoas e grupos procuram prolongar a instabilidade política e a insegurança no Haiti. O governo local e a comunidade internacional devem ''neutralizá-los'' visando as próximas eleições, mas também em função da democratização do país a longo prazo.

''Estes grupos são armados e muitos são manipulados por redutos fiéis ao ex-presidente Jean Bertrand Aristide e seu movimento político Lavalas; outros por grupos anti-Aristide, empresários, traficantes de drogas e outras organizações criminosas'', acrescenta a organização.

Uma das mais recentes ações dos partidários de Aristide foi o ataque, na terça-feira, a um mercado no centro de Porto Príncipe. Os assaltantes utilizaram armas de fogo e lançaram bombas incendiárias.

Ontem, mais seis corpos foram encontrados entre os escombros, aumentando para oito o número de mortos no incêndio criminoso. As duas primeiras vítimas haviam sido baleadas, mas segundo a polícia, as demais morreram em decorrência do fogo.

Quatro policiais ficaram feridos, um deles em estado grave. Os soldados brasileiros da Minustah também ajudaram a controlar a confusão no mercado, que fica próximo ao bairro de Cité Soleil, um dos mais pobres da capital e que concentra muitos aliados do Lavalas.

O prefeito de Porto Príncipe, Carline Simon, revelou que o ataque foi uma vingança contra policiais, que há quatro dias haviam matado um criminoso do bando:

- Eles haviam avisado que voltariam para se vingar. Precisamos da ONU e da polícia para proteger a área.

Também na terça-feira, o cônsul honorário da França em Cap Haitien (norte), Paulo Henri Mourral, de 50 anos, morreu depois de receber vários disparos, quando ia de carro ao aeroporto de Porto Príncipe. O Ministério de Relações Exteriores da França condenou o assassinato e pediu uma ''cooperação mais estreita'' entre a polícia haitiana e a força de estabilização da ONU no Haiti.

Já a embaixada da França no Haiti pediu aos franceses que vivem no país que sejam mais ''prudentes e vigilantes''. Calcula-se que cerca de 2 mil franceses, muitos com dupla nacionalidade, morem na nação caribenha.

Ao longo de sete meses, mais de 620 pessoas morreram baleadas no Haiti, a maioria delas na capital.