Título: EUA planejam enviar fuzileiros
Autor: Sheila Machado
Fonte: Jornal do Brasil, 06/06/2005, Internacional, p. A7
A embaixada americana em Porto Príncipe pediu ao governo de George Bush que estude a possibilidade de enviar centenas de fuzileiros ao Haiti para lutar contra a insegurança, sobretudo na perspectiva de eleições no final do ano. A informação foi publicada ontem no jornal The Washington Post, que em editorial afirmou que a missão de estabilização da ONU no país (Minustah) ''é um fracasso'' e que o governo interino não conseguiu criar as condições favoráveis para a realização do pleito.
Dessa maneira, ''é necessária uma nova operação de ajuda ao país, que não pode acontecer sem a colaboração das tropas americanas'', acrescenta.
Bastante crítico em relação ao comando brasileiro da força da ONU - com 7,4 mil militares e policiais internacionais - o Washington Post opina que uma tropa americana poderia trabalhar com os capacetes-azuis. Quanto antes chegarem os marines, mais se facilitará sua missão, considera o jornal.
Em outro ''duro golpe'' contra os esforços de estabilização - como classificou o premier Gerard Latortue - o Departamento de Estado dos EUA decidiu, na semana passada, retirar o pessoal não-essencial do Haiti, depois de um ataque a um carro consular, sem vítimas.
Entretanto, o comandante militar da Minustah, general Heleno Ribeiro, sustenta que ''a insegurança não é generalizada, como os EUA fazem parecer''.
- Porto Príncipe registrou nas últimas três semanas uma onda de seqüestro, mas o resto do país está calmo há seis meses. Atuando com a polícia e reforçando o patrulhamento, conseguimos recuperar o controle. A situação não está fora de domínio e estes crimes não são uma ameaça à eleição - reagiu o brasileiro, em entrevista ao JB.
O general lembra que historicamente os pleitos no Haiti são marcados por determinadas ''ações pontuais de violência, como tiros para o alto nos colégios eleitorais'':
- Não é um caso isolado do Haiti, acontece em várias eleições do mundo. São episódios que não chegam a comprometer a votação, a levantar suspeitas de que o pleito não tenha sido transparente.
Para o comandante militar da Minustah, ''é necessário termos tolerância com o processo eleitoral no Haiti, como ocorreu com o Iraque e o Afeganistão''.
- Em nenhum momento houve a promessa de que as eleições ocorreriam sem incidentes. Mas vamos gerenciá-los - garantiu o general Heleno.
A comparação entre o país caribenho e Iraque ou Afeganistão, no entanto, é rejeitada por Ettore di Benedetto, analista de Haiti para o International Crisis Group:
- Diferentemente das duas nações muçulmanas, não é a primeira vez que o Haiti organiza eleições democráticas. Pelo contrário, é a quinta em menos de 15 anos. Os haitianos precisam saber que desta vez a situação vai mudar para melhor, que no futuro haverá empregos.
O fato é que todos concordam que para as eleições terem sucesso, ainda há muito o que melhorar na área da segurança. Se antes a preocupação principal era com os aliados do ex-presidente Jean-Bertrand Aristide - que costumam agir com violência em exigência à volta do líder exilado -, agora se estende às gangues armadas. Polícia e governo as acusam de estarem por trás da onda de seqüestros e anunciaram ações para reprimir os grupos.
Na mais recente, pelo menos 25 pessoas foram mortas, na sexta-feira e sábado, quando a polícia fez várias incursões pelos bairros pobres de Porto Príncipe, inclusive Bel Air - onde se concentram aliados de Aristide. Moradores denunciam que os tiros partiram dos policiais, que também estariam incendiando casas. A polícia, todavia, não confirmou o número de mortos e não esclareceu se todas as vítimas morreram nas ações ou se algumas foram atingidas quando membros de gangues reagiram com disparos.
De acordo com o coronel Carlos Barcellos, o contingente brasileiro da Minustah não participou das ações policiais. Apenas estabeleceu postos de controle e fez a segurança em determinadas áreas de Bel Air.