Título: Empresas perdem para os juros
Autor: Samantha Lima
Fonte: Jornal do Brasil, 06/06/2005, Economia, p. A17

A histeria dos empresários sobre os efeitos da política monetária no investimento produtivo ganha reforço após análise da rentabilidade das empresas brasileiras em confronto com o retorno oferecido a quem aplica nos títulos públicos - remunerados pela taxa básica de juros em 80% dos casos. De 243 empresas que apresentaram demonstrações financeiras do primeiro trimestre à Comissão de Valores Imobiliários até 15 de maio, apenas 34% ofereceram ao investidor ganhos além da Selic.

O levantamento foi realizado pelo Conselho Regional de Contabilidade e a Partner On Line. Para calcular a rentabilidade de cada companhia, foi dividido seu lucro trimestral pelo patrimônio líquido (ativos menos passivos). No período, a rentabilidade oferecida pela Selic foi de 4,18%, patamar superado por apenas 83 empresas. A rentabilidade média delas foi de 0,28%

- O investimento produtivo tem um risco superior ao de um título público. Por isso, tem de oferecer uma rentabilidade maior. Nossa política de juros desestimula o investimento produtivo - critica o economista Fábio Freitas, da UFRJ.

O resultado só não foi pior porque, ainda embaladas pela expansão de 2004, as empresas tiveram desempenho melhor no primeiro trimestre de 2005 do que do ano passado. Entre janeiro e março de 2004, a Selic acumulava 3,77%, o que deixava somente 78 das 243 empresas com rentabilidade superior. Aplicando-se a taxa de 2005, o número de empresas acima da linha de corte cairia para 68.

- Com a economia desacelerando, se mantivermos os juros altos, haverá ainda menos empresas à frente dos títulos públicos - alerta Nelson Rocha, presidente do CRC-RJ. - O investidor estrangeiro está em busca das melhores condições de retorno para suas aplicações. Ele vai analisar a rentabilidade e o risco das duas possibilidades e concluirá que é melhor investir nos títulos públicos.

Rocha, do CRC, diz que uma medida de comparação para o desempenho das empresas seria imaginar um período de dez anos para ter o investimento de volta.

- Calculando uma rentabilidade mínima de 10% ao ano além dos juros, hoje a 19,75% ao ano, um investimento aqui teria de oferecer retorno de mais de 30% no ano.

Segundo o diretor financeiro da Ampla, Abel Rochinha, a situação brasileira surpreende o investidor estrangeiro. A concessionária, que tem entre os principais acionistas as estrangeiras Chilectra, EDP e Endesa, apresentou uma rentabilidade trimestral de 0,82%, de acordo com a pesquisa do CRC-RJ.

- O investidor externo acha que a distorção aqui dentro é muito grande. Fazer por ano mais do que 19,75% é difícil. No Chile a remuneração ao acionista é muito superior ao juro local. Felizmente, o investidor produtivo tem uma visão de longo prazo e não desiste de apostar no país diante disso.

O vice-presidente da Federação das Indústrias do Rio, Carlos Gross, concorda.

- É uma situação conjuntural. Ser empresário requer sacrifícios. É uma vocação e, por isso, não há um risco de ninguém vender seus negócios para investir em títulos públicos - afirma.