Título: Oficial PM diz que crime teve mandante
Autor: Ana Paula Verly
Fonte: Jornal do Brasil, 03/06/2005, Rio, p. A17
Depoimento contradiz versões anteriores O comandante do 15º BPM (Duque de Caxias), coronel Paulo César Ferreira Lopes, foi o primeiro representante do estado a admitir que a chacina do dia 31 de março na Baixada Fluminense pode ter sido um ato premeditado e com um mandante determinado. A afirmação, feita ontem na Comissão de Direitos Humanos da Alerj, contraria as declarações dadas aos mesmos deputados pelo secretário de Segurança, Marcelo Itagiba, pelo chefe de Polícia Civil, delegado Álvaro Lins, e pelo inspetor-geral da Polícia Militar, coronel João Carlos Ferreira. Os três chegaram a afirmar que o crime teria sido uma ação isolada de facínoras. Ontem o oficial afirmou que ''qualquer indivíduo com inteligência mediana deduziria que alguém atuou com orientação maior''. - Acredito que a ação foi orquestrada para obedecer o planejamento e a direção de um mentor intelectual. Existe um peixe graúdo. As investigações estão se desenvolvendo de forma satisfatória e ele vai cair na rede - disse Lopes.
O coronel esteve ontem na Alerj para prestar esclarecimentos sobre a chacina. No início das investigações, a motivação foi atribuída ao regime disciplinar rígido imposto por ele aos policiais do batalhão - um regime que teria motivado a morte de duas pessoas em retaliação.
Para o coronel, a matança foi uma represália a ação moralizadora imposta pelo governo do Estado com a mudança de comando de diversos batalhões da Baixada:
- Houve retaliação por causa das medidas rigorosas. Nomear o mentor seria leviano.
Lopes diz que a hipótese é reforçada por uma constatação do coronel João Carlos Ferreira ao ser informado sobre os primeiros mortos, na noite da chacina, na área do 20º BPM (Mesquita).
- Ele disse: 'ontem foi no 15º BPM, hoje é no 20º BPM e amanhã será no 24º BPM (Queimados)' Foi uma dedução lógica, uma vez que essas unidades tiveram os comandos alterados - disse.
Integrante da comissão, o deputado estadual Alessandro Molon (PT) informou que o coronel João Carlos será convidado à Alerj para esclarecer as razões da ''premonição'', bem como o comandante do 24º Batalhão (Queimados), coronel Marco Aurélio Hippert, que ainda não foi ouvido pelo Ministério Público (MP) estadual.
Questionado pelos deputados, o coronel Lopes negou ter conhecimento de que uma disputa política envolvendo o ex-comandante de Policiamento da Baixada, coronel Francisco D'Ambrósio - que pretendia se candidatar nas próximas eleições - e o coronel João Carlos Ferreira estaria por trás dos fatos. A hipótese foi levantada pelo deputado estadual Paulo Ramos (PDT).
Lopes lembrou que assumiu o comando do 15º BPM em julho de 2004, quando Caxias era alvo de escândalos de corrupção envolvendo PMs e o transporte alternativo. Na reunião, o deputado estadual Geraldo Moreira (PSB), presidente da comissão e morador de Caxias, apontou o vereador Samuca (PMDB) como suposto envolvido em um esquema pré-eleitoral. A comissão vai ao MP cobrar dos promotores rigor na apuração dos mandantes. Hoje, na 4ª Vara Criminal de Nova Iguaçu, os 11 PMs acusados de participar da chacina serão interrogados.