Título: Outro membro do MSF é preso
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Fonte: Jornal do Brasil, 03/06/2005, Internacional, p. A12
Governo também intimidou tradutor de Annan, durante visita a Darfur. ONU pede liberdade de trabalho para as ONGs
CARTUM - O governo sudanês prendeu outro membro do Médicos Sem Fronteira, devido a um relatório sobre estupros na região de Darfur, e intimidou o intérprete de Kofi Annan quando o secretário-geral da ONU visitou a região. As acusações foram feitas pelo principal enviado das Nações Unidas no Sudão, Jan Pronk.
Na segunda-feira, o país deteve o diretor do MSF, Paul Foreman. Ontem, foi preso Vince Hoedt. O grupo publicou em março um relatório detalhado sobre 500 casos de estupros ocorridos em um período de quatro meses e meio em Darfur, região onde há conflitos armados desde o começo de 2003.
Pronk criticou a prisão dos dois membros do MSF e disse que conversaria pessoalmente com o presidente sudanês, Omar Hassan al Bashir.
- Também pedi às autoridades do Sudão que permitissem aos grupos de ajuda operar livremente - acrescentou Annan, em Nova York.
Foreman foi libertado ainda na segunda, depois de pagar fiança e responder a um interrogatório. Ele disse ter sido acusado de espionagem, de divulgar relatórios falsos e de minar a sociedade sudanesa. Ontem, Hoedt ainda era interrogado.
A Procuradoria-Geral do Sudão estipula uma pena máxima de 3 anos de prisão para tais crimes, seguida de expulsão permanente do país.
De acordo com Pronk, também o tradutor de Annan em Darfur recebeu ordens para comparecer diante de autoridades várias vezes. No entanto, a demanda foi retirada.
A Human Rights Watch afirmou em um comunicado que os líderes em Cartum deveriam prender os responsáveis pelos crimes e não os membros de grupos de ajuda humanitária. Segundo a ONG, ao menos 20 integrantes de grupos de ajuda foram detidos em Darfur nos últimos seis meses.
O Comitê Internacional da Cruz Vermelha divulgou ontem que a intensidade do conflito em Darfur diminuiu e os ataques armados em grande escala são menos freqüentes. No entanto, aumentaram os confrontos tribais que entravam o fim da crise humanitária. A insegurança impede que os refugiados voltem às suas terras e os obriga a permanecer em acampamentos ou na periferia dos centros urbanos. Por isso, os campos não foram cultivados, o que contribui para a insegurança alimentar e dificulta a recuperação da economia local.
O Programa Mundial de Alimentos calculou em 3,5 milhões o número de pessoas que requerem assistência em Darfur, mas admitiu que por enquanto só pode atender 2,5 milhões.