Título: Mais um dia de rebelião na Câmara
Autor: Paulo de Tarso Lyra
Fonte: Jornal do Brasil, 21/10/2004, País, p. A-3

Oposição recebe ajuda de governistas para bloquear votações. PMDB quer manter obstrução até o fim do segundo turno

Durou um dia a paz na bancada governista. Após conseguir votar, na terça-feira, quatro medidas provisórias - três aprovadas e uma rejeitada - o governo voltou a ter dificuldades ontem com os aliados, que obstruíram as votações. Até as 20h, nada havia sido votado e a expectativa mais otimista era de que uma ou duas medidas provisórias, no máximo, seriam ainda apreciadas Só a homenagem ao Dia do Aviador e à Força Aérea Brasileira, realizada a pedido da deputada Maninha (PT-DF), na Câmara, movimentou o plenário.

PMDB e PPS uniram-se à oposição para bloquear as votações. Além das mágoas tradicionais - emendas parlamentares, feridas das eleições - os peemedebistas trouxeram para a pauta a possibilidade de ressurreição da emenda que permite a reeleição das mesas diretoras, para justificar os braços cruzados em plenário.

- O PMDB sabe que, se os deputados liberarem a pauta, votando todas as medidas provisórias, o presidente João Paulo vai querer colocar a reeleição em discussão - confirmou um peemedebista.

O presidente da Câmara, João Paulo Cunha (PT-SP), desconversou, garantindo que não está pensando nisso e que não tratou do tema com nenhum parlamentar, nem com o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), com quem reuniu-se pela manhã. O líder do governo na Câmara, Professor Luizinho (PT-SP), confirmou que alguns deputados levaram a ele essa preocupação, sem mencionar quem ameaçava colocar a emenda da reeleição em pauta novamente.

- Quem é contra a reeleição, fica utilizando este argumento - complementou Luizinho.

O líder do PMDB na Câmara, José Borba (PR), admitiu ontem que seu partido pretende manter a obstrução até o fim do segundo turno. Lembrou que, na próxima semana, a presença em Brasília será mínima, já que serão os dias decisivos para as campanhas eleitorais.

- Não é uma posição unânime, mas é da maioria. É muito melhor esperar os deputados voltarem, e serenarem os ânimos - justificou.

O líder do PPS na Câmara, Júlio Delgado (MG), também confirmou que vem enfrentando pressões de todos os lados. Pelo menos quatro deputados queixaram-se de ''maus tratos'' petistas durante o processo eleitoral, e afirmaram que não poderiam votar a favor do governo depois das batalhas municipais.

Chegou a circular pelos corredores da Casa um boato de que o próprio Júlio estaria magoado com o presidente João Paulo Cunha por conta do apoio do petista ao candidato do PSDB em Juiz de Fora, Custódio Mattos. Desta maneira, a obstrução do PPS ontem seria uma forma de retaliação.

- Isso é um absurdo. A obstrução é política, não tem nada a ver com Juiz de Fora. Não traria assuntos paroquiais para Brasília - defendeu-se o líder.

Parlamentares de todas as legendas reclamaram do ritmo pretendido pelo governo na votação das medidas provisórias. O PCdoB gostaria de mudanças na MP que dá status de ministro ao presidente do Banco Central, Henrique Meirelles; o PV está preocupado com a MP da biossegurança e o próprio PPS, com a medida que concede benefícios previdenciários.

- Eles acham que vão votar tudo a toque de caixa e nos deixar levar ao desgaste até o fim das campanhas. Estão enganados - resumiu Delgado.

O presidente da Câmara, João Paulo Cunha (PT-SP), marcou sessões deliberativas para hoje à tarde, terça e quarta da próxima semana. Desistiu de tentar votar matérias na sexta-feira. Mesmo assim, ameaçou cortar o ponto dos deputados que não estiverem em Brasília em dias de votação.

No jantar da semana passada com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ministro José Dirceu, o presidente do PTB, Roberto Jefferson, recebeu aval para atrair deputados, senadores e governadores para a legenda. O objetivo do Planalto é fortalecer o PTB e enfraquecer o poder do PMDB dentro da coalizão governista.