Título: Sem reforma ministerial
Autor: Daneil Pereira
Fonte: Jornal do Brasil, 08/06/2005, País, p. A2
No discurso de abertura do 4º Fórum Global de Combate à Corrupção, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que, independente do uso político e eleitoral ¿que alguns estejam fazendo dessas denúncias¿, levará as investigações até as últimas conseqüências. Na mesma linha de discursos de líderes políticas no Congresso, o presidente defendeu a instalação da CPI para investigar os casos de corrupção nas estatais ¿ envolvendo os Correios e o Instituto de Resseguros do Brasil ¿ e afastou a adoção de medidas drásticas em seu governo para conter a crise política instalada em sua administração.
Desta forma, o presidente afastou também a expectativa de uma reforma ministerial iminente que rondava a Esplanada nos últimos dias. Prometeu, entretanto, continuar demitindo funcionários envolvidos nas denúncias de corrupção. O presidente citou o ¿peso de sua biografia e imagem pública¿ ao prometer punições a qualquer pessoa envolvida em corrupção em seu governo, mantendo o cuidado de não citar nomes, nem de seu partido, nem de aliados, ao defender uma investigação profunda das denúncias.
Em referência ao governo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, Lula afirmou que o processo inadequado de privatização, o sucateamento da máquina pública e a terceirização da gestão estatal terminaram por estimular o crescimento da corrupção no país. A favor da sua administração, fez menção a medidas adotadas por seu governo aumentando a transparência dos gastos públicos e à ação do Ministério Público e da Polícia Federal no combate à corrupção, ¿uma coisa crônica, incrustada na alma do corrupto e alimentada pela impunidade¿, segundo ele.
O tom do pronunciamento do presidente consumiu as preocupações de ministros no núcleo político durante o dia. A versão final do discurso só saiu do forno no meio da tarde depois de uma série de reuniões na sala do chamado Gabinete da Crise.
Havia quem defendesse que, durante o pronunciamento, o presidente se referisse a Jefferson, cobrando-lhe explicações e provas sobre suposto pagamento a parlamentares. Prevaleceu a tese, no entanto, da turma do deixa disso de que a ofensiva colocaria Lula na linha de tiro, o que poderia prejudicar sua imagem e a do governo.
O presidente também foi aconselhado por auxiliares diretos de, no rastro das trocas nos comandos das estatais, anunciar uma ampla reforma nos ministérios. Nesse caso, as mudança seriam anunciadas durante o Fórum e comporiam o que o governo batizou durante o dia de ¿choque ético¿ contra o carimbo da corrupção no governo. Lula, porém, teria afastado a hipótese. Pelo menos, por hora, uma reforma ministerial está descartada.
Há um temor no governo de que uma demissão em massa, nesse momento, soaria como uma confissão de que o primeiro escalão estaria contaminado pela corrupção, justamente o oposto do que o Planalto pretende disseminar. Mudanças pontuais, no entanto, poderão ocorrer.