Título: Saída foi negociada
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Fonte: Jornal do Brasil, 07/06/2005, Internacional, p. A12
Com as principais cidades bolivianas sitiadas, cresceram os rumores de que o presidente Carlos Mesa estaria prestes a renunciar. A alternativa constitucional para a sucessão seria o presidente do Senado, Hormando Vaca Diez. No entanto, os setores mobilizados também pedem sua renúncia, assim como a de Mario Cosío, presidente da Câmara de Deputados. ¿ A Igreja Católica está mediando não-oficialmente a renúncia dos três e quem deve assumir é o presidente da Suprema Corte de Justiça, Eduardo Rodríguez, que convocaria eleições presidenciais para dezembro ¿ afirma ao JB Iván Canelas, repórter político do diário boliviano La Razón. ¿ De fato, a situação é irreversível. Mesa não tem partido e só conta com o apoio de 20 dos 157 parlamentares.
A renúncia de Mesa foi pedida por grupos indígenas e cocaleros que o consideram ¿subjugado aos interesses das transnacionais energéticas¿ e ¿covarde¿, por não nacionalizar a exploração de gás natural. Empresários consideram que o presidente ¿não governa¿ e que ¿deixou crescer os conflitos que hoje dividem a Bolívia¿. Já as oligarquias das províncias do Leste ¿ entre elas a rica Santa Cruz ¿ exigem autonomia regional.
Numa tentativa de apaziguar os ânimos, na semana passada Mesa decretou que em 16 de outubro seriam realizadas eleições de uma nova Assembléia Constituinte e um referendo sobre as autonomias provinciais. A emenda saiu pior do que o soneto. Parlamentares e a oposição ¿ liderada pelo Movimento ao Socialismo (MAS) ¿ classificaram o decreto supremo inconstitucional, pois a proposta deveria ter passado pelo crivo do Congresso. As províncias decidiram manter o referendo para agosto, como fora acordado. E a crise, que fermentava desde 16 de maio, se acirrou.
¿ A Constituinte se tornou o ponto principal da crise, agora. Quando Mesa cair, o que acredito que ocorrerá em no máximo duas semanas, o processo terá de ser acelerado. A eleição da Assembléia deve ser antecipada, talvez para agosto ¿ afirma, por telefone, o analista político Diego von Vacano, do Instituto de América Latina da Columbia University.
Segundo Vacano, o prazo de duas semanas é razoável para que a Igreja, hoje principal mediadora, consiga promover o diálogo entre oposição, oligarquias regionais e governo, com vistas a alcançar um mínimo de governabilidade para a Bolívia. Apenas a renúncia do atual presidente não resolveria a crise:
¿ Neste momento todos têm exigências tão distintas que não há alternativa a não ser uma mobilização organizada, que promova um ambiente político um pouco mais estável.
Inclusive no governo, a renúncia de Mesa era vista como uma saída possível.
¿ O presidente está disposto, numa situação como esta, a facilitar qualquer solução ¿ confirmou a ministra da Participação Popular, Gloria Ardaya.
Após reunião ontem, a Igreja e o MAS expressaram confiança e otimismo numa breve solução para a crise.