Título: Presidente da Bolívia renuncia
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Fonte: Jornal do Brasil, 07/06/2005, Internacional, p. A12

Acossado pela oposição e isolado após três semanas de intensas manifestações populares, Carlos Mesa abre mão do cargo

LA PAZ - A crise institucional da Bolívia chegou ao ápice na noite de ontem, quando o presidente Carlos Mesa anunciou sua renúncia. Em rede de rádio e TV, o presidente ¿ cujo mandato só terminaria em agosto de 2007 ¿ abriu mão do cargo. Momentos antes, diante da maior manifestação de oposição das últimas três semanas, o governante fora forçado a abandonar, por algumas horas, o Palácio Quemado. A renúncia ainda precisa ser ratificada pelo Congresso. A opção pela saída foi tomada depois de reunião de Mesa com seu gabinete e a cúpula militar. Em discurso à nação, o presidente pediu desculpas por não ter alcançado os objetivos a que se propunha.

A escassez de combustível e alimentos na capital agravou as tensões. A instabilidade deixou o campo aberto para que boatos sobre um golpe de Estado contra o presidente e cortes no abastecimento de água e outros serviços crescessem.

A enorme pressão sobre Mesa vinha sendo coordenada pelos líderes aymaras e pelos autonomistas de Santa Cruz. O movimento também exige a dissolução do Congresso e a convocação imediata de uma Assembléia Constituinte.

¿Agora sim, nacionalização dos hidrocarbonetos¿ e ¿Agora sim, guerra civil¿ eram os principais slogans gritados durante a passeata de ontem.

A manifestação, que teria reunido 80 mil pessoas, estava vencendo os bloqueios e levou os assessores militares a recomendar que Mesa saísse do palácio, para onde voltaria duas horas depois. A decisão inflamou os rumores de golpe ou renúncia. Os manifestantes abriam caminho lançando ¿cachorros¿ ¿ como são chamadas pequenas bombas caseiras que, ao explodir, causam pânico entre os moradores. Em uma cidade onde normalmente pouca gente fuma, por toda parte ontem se viam pessoas com cigarros acesos, um antídoto boliviano para os efeitos das inúmeras bombas de gás lacrimogêneo lançadas pela polícia.

Com o país parado por bloqueios em 70 pontos, o isolamento é sentido pela população ¿ mais de 1 milhão de pessoas. Sem combustível à venda, os carros não circulam e os gêneros alimentícios não são entregues. Não há movimento nas ruas além daquele por onde passa a manifestação. O transporte público, precário, deve piorar, já que os motoristas decidiram aderir ao movimento pela estatização do gás.

Além dos cartazes nos postos de gasolina, padarias também puseram à vista avisos sobre a falta de farinha. Comerciantes disseram que os estoques estão sendo vendidos com ágio de 300%. O mesmo ocorre com a carne bovina e o frango. Os clientes também sumiram das lojas. Por ironia, para um país com milhões de metros cúbicos de reserva, acabou o gás de cozinha. A degradação se agravará a partir de amanhã, quando não mais haverá coleta de lixo. Uma rádio informou que a principal tubulação de água da cidade foi quebrada.

Na multidão de manifestantes, o professor Max Mendoza, gritava a plenos pulmões:

¿ Em que país professores ganham US$ 60 por mês? O Congresso e o presidente ignoraram por muito tempo as demandas dos pobres.

A ameaça aos prédios públicos faz com que a maior parte do policiamento se concentre no Centro. Para substituir os policiais, os moradores organizaram comitês de segurança de bairros, de forma a evitar saques. No Sul da capital, o salão da igreja de São Miguel abrigou uma reunião onde 400 vizinhos decidiram faltar ao trabalho para formar uma brigada que patrulhará as ruas 24 horas por dia.

¿ Não usaremos armas de fogo, mas estaremos preparados se quiserem destruir nossas casas ¿ afirmou um dos dirigentes do grupo, sem se identificar.

Um dos líderes da oposição, o cocalero Evo Morales, do Movimento Ao Socialismo (MAS), disse que a renúncia de Mesa e dos presidentes da Câmara e do Senado é a única saída para tornar viável convocar eleições gerais.