Título: Risco sobe na carona da crise
Autor: Mariana Carneiro e Samantha Lima
Fonte: Jornal do Brasil, 07/06/2005, Economia & Negócios, p. A17
O mercado externo refletiu ontem a instabilidade criada no campo político. O risco Brasil avançou 3,8%, para 432 pontos. Um dos títulos da dívida externa de maior liquidez, o Global 40 caiu 0,7%. - Há um acúmulo de notícias negativas vindas do Brasil. O país ainda tem uma percepção positiva do mercado externo, mas isso pode ir se tornando neutro se o governo não conseguir reagir - opina o chefe de mercados emergentes do ABN Amro em Londres, Raphael Kassin.
Segundo ele, o resultado do mercado de dívida externa ontem, além da crise política, refletiu a realização de lucros, já que os preços dos títulos brasileiros lá fora chegaram próximos ao recorde na última sexta-feira.
- Por sua vez, os fundamentos econômicos do Brasil não estão no seu recorde - avalia Kassin, que se desfez de todas as posições em títulos brasileiros na última sexta-feira.
De acordo com o estrategista para América Latina do Banco Barclays em Nova York, Gustavo Rangel, ainda é cedo para saber se haverá contaminação política na economia.
- É claro que a noticia é certamente negativa, mas acho que investidores externos já esperavam que não houvesse muito avanço no campo legislativo e também que o ruído político aumentasse na medida em que nos aproximássemos das eleições. A surpresa é que o ruído político começou cedo demais e também há um grau maior de incerteza com relação à possibilidade de Lula conseguir ser reeleito.
No mercado interno, a reação foi mais instantânea. Os leilões de dois títulos públicos - LFT com vencimento em dezembro de 2008 e NTN-B, para maio de 2009 - foram suspensos.
- A instabilidade leva o mercado a exigir um prêmio maior pelo risco de comprar um título público. E o Tesouro não aceitou pagar esse prêmio maior - explica o economista Bernardo de Sá Mota, da Máxima.
O mercado futuro também mostrou elevação nas expectativas para os juros. As projeções do DI nos os contratos para 2007 avançaram de 17,71% para 17,99% e em 2008, de 17,11% para 17,45%
Com isso, a analista Rachel Fleury, da Tendências, não descarta a possibilidade de que, diante da instabilidade, o governo possa manter a taxa Selic em nível elevado por um período maior do que inicialmente previsto ou mesmo uma elevação.
- O governo pode querer dar sinais ao mercado de que manterá os fundamentos, com maior rigor monetário e fiscal.