Título: Turbulência política respinga no mercado
Autor: Mariana Carneiro e Samantha Lima
Fonte: Jornal do Brasil, 07/06/2005, Economia & Negócios, p. A17

A inércia do mercado financeiro diante das denúncias levantadas nas últimas semanas sobre corrupção em empresas estatais se desfez ontem. As acusações do deputado federal e presidente do PTB, Roberto Jefferson (RJ), de que o tesoureiro do PT, Delúbio Soares, pagava mesada a parlamentares para que votassem com o governo, com o conhecimento de fortes ministros da administração Lula, provocaram nervosismo, derrubando a Bolsa de Valores e elevando a cotação do dólar. As incertezas provocaram ainda alta da taxa de juros no mercado futuro e reversão da valorização dos títulos do país lá fora, afetando o risco Brasil.

- O movimento de estresse tem relação direta com a crise de confiança criada pelas denúncias. O investidor tem dúvidas se elas podem respingar no presidente e na equipe política econômica, o que mexe nos preços dos ativos - diz Bernardo de Sá Mota, economista da corretora Máxima.

O dólar encerrou em alta de 0,94%, vendido a R$ 2,4576. Durante o dia, a moeda atingiu pico de alta de 2,18%, a R$ 2,48. Além da saída de investidores estrangeiros, o movimento reflete o comportamento dos bancos.

- Os bancos estão com uma posição vendida (com venda prometida no mercado futuro) muito forte e um dia terão que entregar todo esse volume. Diante da possibilidade de uma crise política, eles compraram em grande quantidade agora, antes de uma eventual valorização forte - explica a analista Rachel Fleury, da Tendências Consultoria.

Na Bolsa de Valores, o nervosismo inverteu a recuperação dos últimos dias. Depois de alta de 1,61% na última sexta-feira, o pregão encerrou em queda de 3,07%. Durante o dia, a bolsa chegou a cair 4,15%. Entre os 55 papéis que compõem o Ibovespa, somente três registraram alta, sendo dois da Embraer, motivados pelo anúncio de novas encomendas.

- Neste primeiro momento, todos os papéis sofrem impacto da saída do investidor, já que não se sabe o que ocorrerá nos próximos dias. Se a crise avançar, a tendência de queda permanecerá nos papéis ligados a setores regulados pelo governo e os que têm endividamento em dólar. Já as exportadoras, como Vale e Sadia, poderão ser beneficiadas com uma eventual elevação do dólar - aposta Ricardo Magalhães, gestor de renda variável da Mellon Global Investment.

Em São Paulo, o secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Murilo Portugal, tentou levar calma ao mercado.

- Sei que o setor financeiro tem por obrigação estar sempre atento aos acontecimentos de momento, preocupar-se com cada novo movimento que surge no cenário político, no cenário econômico, às manchetes de jornal de cada dia. Mas o importante são os fundamentos - avalia Portugal, durante cerimônia de entrega do Prêmio Balanço Financeiro, concedido pela Gazeta Mercantil.