Título: A remissão dos pecados
Autor:
Fonte: Jornal do Brasil, 08/06/2005, Opinião, p. A12

Em meios aos escombros deixados pela confirmação da denúncia de existência do ''mensalão'' - batismo para a odiosa propina distribuída entre integrantes da ''base aliada'' -, os homens de bem do governo e os políticos decentes do Congresso precisam unir-se para extirpar os tumores da degradação moral de Brasília. É hora de pensar menos nos dividendos eleitorais e mais nas chagas que podem abater o país nos próximos meses. A procrastinação do Palácio do Planalto, por um lado, e a feroz imprudência da oposição, por outro, constituem o principal estímulo para uma implosão da qual poucos sairão beneficiados. Não são raros os insones ainda assombrados com as perturbadoras declarações do deputado Roberto Jefferson (PTB-SP). Afetam o coração do poder e levam para o ralo da incredulidade popular os poderes Executivo e Legislativo - e não apenas o PT e o governo do presidente Lula da Silva. Tal ação, portanto, exigirá especial esforço dos mais importantes personagens da República. A tarefa requer, por exemplo, uma pronta resposta do presidente. Melhor que venha a público o quanto antes, a fim de exercitar a humildade que tem faltado ao PT, revelar se, onde, como e quando soube do ''mensalão'' e desculpar-se pela evidente inércia.

Exigência semelhante recai sobre os ex-presidentes da Câmara, João Paulo Cunha (PT-SP), e do Senado, José Sarney (PMDB-AP). Depois que o Jornal do Brasil publicou a denúncia, no ano passado, João Paulo teve a chance de conduzir uma investigação sobre a mesada concedida aos parlamentares. Desmentiu, ameaçou processar o jornal e engavetou a denúncia. O eleitor lhe cobrará explicações mais claras, do mesmo modo que deseja saber, sem rodeios, os nomes dos mensalistas e sua contraparte. A necessidade de penitência estende-se aos ministros citados, que também saberiam das mesadas.

Importa saber ainda até que ponto o ministro Antonio Palocci ultrapassa ileso o pântano dos ''mensalões''. Até agora conseguiu manter-se distante das sucessivas instabilidades políticas. O ambiente turvo, porém, começa a espalhar-se perigosamente. Para o bem do país, convém blindar o ministro, sobretudo porque os últimos resultados apontam, na melhor das hipóteses, para a estagnação. Tisnada pela política, a economia torna-se um terreno fértil para desconforto institucional. A nota de Palocci em repúdio às denúncias não deixa de ser um alento, mas fica a sensação de que o Planalto cometeu erros políticos demais nos tempos de abundância.

A história brasileira sugere uma difusa fronteira que separa as crises políticas das crises institucionais mais sérias. A preocupação recai especialmente sobre a economia. O risco é que tal receio estimule o governo a frear a ação investigativa do Congresso. Um tiro no pé. As denúncias podem ser verdadeiras ou falsas, mas ignorá-las resultará num equívoco moral e político sem precedentes. É louvável a demissão da diretoria dos Correios e do Instituto de Resseguros do Brasil. Mais do que nunca, contudo, a CPI deve ser interesse do Planalto, a fim de livrar o partido que já foi o guardião da moralidade da vulgarização ética em que se imiscuiu.

No vasto campo da credibilidade perdida, capaz de obstruir a governabilidade, a pronta resposta do Planalto precisará ser acrescida de profunda mudança na articulação governista, em especial os operadores das negociações com o Congresso, José Dirceu e Aldo Rebelo. A renitência dos erros, somada às crises crônicas que desfaleceram a alma política do governo Lula, exige o distanciamento de ambos. Com eles deve sair grande parte da equipe. É o momento de expurgar os que falharam e os semeadores de tumulto. No embalo da limpeza ética na política, o Brasil deseja também um asseio de qualidade administrativa.