Título: Governo da Transparência
Autor: Chico Vigilante
Fonte: Jornal do Brasil, 08/06/2005, Brasília, p. D2

Esconder a sujeira sob o tapete sempre foi praxe na política brasileira. Foi assim no governo Collor de Mello, foi assim no governo FHC e querem que seja assim no governo Lula. Mas, para desespero de quem chafurdou na lama das administrações anteriores, o presidente Lula demonstra desde o início do seu mandato que não é complacente com a roubalheira. Inconformada, a oposição tenta macular o que sempre foi premissa para o PT: o combate à corrupção.

Como estratégia, os opositores achincalham Lula com o argumento de que o governo está abafando escândalos - o que não é verdade. Esquecem que a estirpe da qual fazem parte sempre foi o sustentáculo da impunidade. Também fingem desconhecer que a corrupção é algo visceral entre eles. Vide o mandato do presidente Fernando Henrique Cardoso, que foi o artífice-mor de estratégias para engavetar escândalos.

FHC acumula em seu currículo uma extensa lista de irregularidades que não foram apuradas. São casos que ficaram famosos: Sivam; Proer/Pasta Rosa; Marka e FonteCindam; Opportunity - entre muitos outros. De acordo com levantamento feito pela Liderança do PT na Câmara dos Deputados, os escândalos camuflados por FHC representaram, em prejuízo ao país, um montante de R$ 40 bilhões.

O caso Sivam (Sistema de Vigilância da Amazônia) foi um dos primeiros a ganhar repercussão no governo tucano. As irregularidades no contrato de criação do sistema derrubaram em 1995 um ministro e dois assessores do presidente. Mas a CPI criada para apurar o caso foi esvaziada e se limitou a repetir informações do Ministério Público Federal.

No mesmo ano, o Banco Econômico recebeu R$ 9,6 bilhões do Proer (Programa de Estímulo à Reestruturação e ao Sistema Financeiro Nacional). A CPI instalada em 2001 para apurar o caso concluiu não haver irregularidade na ajuda. A investigação sobre os 25 políticos supostamente beneficiados com esse dinheiro foi encerrada meses depois de o caso se tornar público. Mais uma vez, reinou a impunidade.

No caso dos bancos Marka e FonteCindan, o Banco Central (BC) socorreu as duas instituições financeiras durante a desvalorização do Real, no início de 1999. O episódio envolveu o presidente do próprio BC, Chico Lopes, que, à época, chegou a ser preso. Na sua casa, foi encontrada uma elevada quantia em dólares. O pedido de CPI sobre o caso tramitou dois anos na Câmara e depois foi arquivado.

No episódio do banco Opportunity, um grampo telefônico feito no BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) revelou acertos do ministro das Comunicações e do presidente do BNDES para beneficiar um amigo em comum (um dos donos do consórcio do banco Opportunity), durante a privatização do sistema Telebrás. O pedido de CPI sequer foi apresentado, pois não obteve o número mínimo de assinaturas.

Todos esses escândalos esbarraram na falta de investigação, ao contrário do que acontece no governo Lula, que se revela implacável com a corrupção. Basta verificar o resultado dos trabalhos da Polícia Federal (PF) e da Controladoria-Geral da União (CGU). Nos últimos 29 meses, a PF fez um combate ostensivo ao crime organizado: 1.424 pessoas foram presas em 77 operações especiais. Entre os criminosos, estavam 819 políticos, empresários, juízes, servidores públicos e policiais. A CGU mostrou o mesmo empenho: fiscalizou 681 áreas municipais, realizou seis mil auditorias em órgãos federais e já encaminhou 2.461 denúncias ao TCU.

Esse é o novo Brasil que os corruptos contumazes não aceitam e, por isso, querem desestabilizá-lo propondo uma CPI que não tem outros motivos senão gerar uma crise e deixar o país ingovernável. A Polícia Federal, assim como fez em outros casos, já investiga a corrupção nos Correios e já indiciou o personagem fonte do escândalo - Maurício Marinho.

Como se vê, o Brasil toma novo rumo. O que o presidente Lula precisa fazer agora é dar continuidade ao seu projeto de governo e desconsiderar os ataques gratuitos de um Congresso que utiliza o legislativo em causa própria. Nada mais acertado que centrar forças e investimentos no trabalho da Polícia Federal para que este Brasil se transforme, de fato, num ''país de todos'' e não se perpetue como um país que sempre pertenceu a poucos.