Título: Mesa alerta para risco de guerra civil
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Fonte: Jornal do Brasil, 09/06/2005, Internacional, p. A8
Presidente rejeita Vaca Díez e Cossío como seus sucessores. MAS convoca bloqueio contra sessão do Congresso em Sucre.
LA PAZ - Em suas prováveis últimas horas como presidente da Bolívia, Carlos Mesa, uniu-se a líderes sociais e a associações de direitos humanos que exigem que o presidente do Congresso, Hormando Vaca Díez, e o presidente da Câmara dos Deputados, Mario Cossío, renunciem ao direito de sucessão constitucional, para permitir que o presidente do Supremo Tribunal, Eduardo Rodríguez, convoque eleições gerais. Segundo Mesa, esta é a única alternativa para evitar uma ''guerra civil''.
- A Bolívia está à beira do abismo. A única saída é um processo eleitoral imediato que contemple todo um mecanismo de transformação - defendeu o presidente, acrescentando que sua renúncia, apresentada na segunda-feira à noite, é ''definitiva''.
O líder do Movimento ao Socialismo, Evo Morales, confirmou o temor de Mesa, ao declarar que a crise boliviana responde a um movimento ''sem parada'' de libertação dos povos indígenas e as autoridades, ao não compreendê-lo, podem causar uma guerra civil.
- Ocorre na Bolívia um processo de pré-revolução. Os protestos em La Paz e El Alto são uma rebelião diante da submissão e da exploração econômica, da opressão política, e da alienação cultural - afirmou o principal incentivador das manifestações que há três semanas sacodem o país andino.
Na mensagem na tevê, junto ao prefeito de La Paz, José Luis Paredes, Mesa também pediu aos manifestantes que permitam a distribuição de alimentos, água, remédios e combustíveis na capital e El Alto:
- Estou tentando evitar um derramamento de sangue.
Em certo momento, o presidente se dirigiu diretamente a Vaca Díez ao dizer que ''quem não pôde por ordem em 157 parlamentares, não pode governar 9 milhões de habitantes''. Na semana passada, Mesa decretou uma data em outubro para a eleição da Constituinte e para o referendo sobre as autonomias das províncias do Leste, depois que o Congresso não chegou a consenso. A medida foi classificada pelos políticos como ''inconstitucional''.
Diante do clima de insegurança em La Paz, Vaca Díez convocou para esta manhã, em Sucre, a plenária que vai decidir se o Congresso aceita a renúncia presidencial. Mas mesmo mudando de local, a sessão está ameaçada. Morales pediu que os índios quechuas impeçam a realização da reunião, aumentando os bloqueios de estradas em torno da cidade, onde há quase 180 anos foi fundada a república, após uma rebelião de mestiços contra o poder espanhol. A mobilização servirá para evitar a posse de Vaca Díez como presidente.
Segundo o cocaleiro, mineiros das jazidas de Amayapampa e Capasirca, onde em 1996 morreram 11 indígenas durante uma repressão militar, partiram para Sucre, assim como 2 mil agricultores de Cochabamba. Em reação, o governo mobilizou mais policiais e militares na capital histórica.
Outro obstáculo à realização da sessão é a chegada dos deputados e senadores. A estrada que liga La Paz ao aeroporto em El Alto está bloqueada e as empresas aéreas estão em regime de semi-paralisação. A LAN e a American Airlines suspenderam os vôos, mas a Varig - que monitora a situação na Bolívia duas vezes por dia - manteve o seu. Para Sucre, apenas a Lloyd Aéreo Boliviano voou ontem. Por isso, Vaca Díez dispôs três aeronaves da Força Aérea para transportar os políticos, de onde quer que estejam, até o aeroporto de Surapata, que está sob controle militar. O governo também pode requisitar aviões particulares, se necessário.
Enquanto isso, as estradas nacionais apresentavam 108 pontos de bloqueios. Só as províncias de Pando (Norte) e Beni (Nordeste) eram acessíveis por via terrestre. No Leste, agricultores ocuparam três campos operados pela petroleira Repsol-YPF e um pequeno poço de petróleo, provocando a suspensão da produção de 3 mil barris de óleo diários.
Em Brasília, o Ministério de Minas e Energia anunciou o preparo, conjunto com a Petrobras, de um plano de contingência, se instabilidade provocar a interrupção da exportação de gás natural ao Brasil.