Título: A milionária conta da turbulência política
Autor: Samantha Lima
Fonte: Jornal do Brasil, 08/06/2005, Economia & Negócios, p. A19

O Tesouro Nacional pagou caro pela instabilidade do mercado financeiro, detonada pelas denúncias de corrupção no governo Lula. Em leilão realizado ontem, foi necessário elevar o prêmio pago aos investidores para conseguir vender quatro dos dez lotes de títulos da dívida pública postos à venda.

O ajuste para cima ocorreu nas Letras do Tesouro Nacional, títulos com rentabilidade prefixada - ou seja, com retorno definido no momento de venda. Grosso modo, a elevação da remuneração ao investidor que comprou esses títulos ontem teve um impacto imediato da ordem de R$ 3 milhões na dívida pública. Em relação ao leilão realizado em 31 de maio, os títulos com vencimento em 1º de janeiro de 2006 tiveram a taxa elevado de 19,68% para 19,74%; os de vencimento em 1º de outubro de 2006 passaram de 18,5% para 18,66%; e os de vencimento em 1º de julho de 2007 avançaram de 17,91% para 18,17%. Além disso, 96 mil dos 1,5 milhões de títulos com vencimento em 1º de janeiro ofertados ao mercado - em geral, facilmente vendidos, devido à proximidade do vencimento - encalharam.

- O reajuste inverteu a tendências desses títulos, que vinham ensaiando uma trajetória de queda em seus prêmios com os indicadores de inflação perdendo força e a expectativa de que, este mês, o Comitê de Política Monetária abandonaria o ciclo de altas nos juros. É um movimento esperado, diante dos acontecimentos dos últimos dias. Para o risco potencial e as incertezas gerados pelas denúncias, até que o nervosismo do mercado tem sido bem comportado - classifica o gestor de renda fixa da Mellon Global Investment, Sérgio Lima.

No mercado futuro, as projeções para a taxa de juros também registraram nova elevação. Os contratos DI com vencimento para janeiro de 2007 - que projetam os juros para o período pós-eleitoral e, desde segunda-feira, como antecipou o Informe Econômico, se tornaram os mais líquidos - fecharam com taxa anualizada de 18,06%, contra 18,02% na segunda-feira e 17,7% na sexta-feira.

No exterior, o risco Brasil, que mede a confiança do investidor estrangeiro através dos preços pagos pelos títulos da dívida externa, avançou de 432 para 443 pontos, alta de 3,02%. O C-Bond, um dos principais papéis brasileiros lá fora, caiu 0,13%, fechando a 101,68% do valor de face, e o Global 40 recuou 0,8%, a 117,5%.

- A reação lá fora, de fato, foi um pouco mais forte do que no dia anterior - avalia o economista Marcel Pereira, da RC Consultores. - Mas ainda não existe um risco de fuga expressiva de capitais. A elevação do câmbio também não se deu em patamar tão elevado.

O dólar avançou 0,2%, de R$ 2,457 para R$ 2,463, depois de subir quase 1%. O nervosismo do mercado contaminou novamente os negócios na Bolsa de Valores de São Paulo, que caiu 2,06%. Em dois dias, a queda acumulada é de 5,08%.

- Por enquanto, os fundamentos econômicos, como exportação em alta e inflação em queda, estão controlando o efeito da crise no mercado, que, de certa forma, ainda é pequeno, se compararmos com crises anteriores - avalia Lima. - Quem aposta contra esses fundamentos, hoje, tem grande chance de tê-los de volta contra si.

- Todos os movimentos são reflexo da tensão política, mas, de forma geral, ainda não houve contaminação maior graças à credibilidade da gestão econômica. Caberá ao governo administrar essa credibilidade, e é isso que o mercado aguarda - diz Pereira.

Ele não acredita que o comportamento do mercado nos últimos dias vá influenciar o resultado da reunião do Copom da próxima semana.

- Isso seria a politização completa da política monetária, indo contra todo o discurso das últimas atas. Acredito que essa é uma demonstração que o governo não queira dar.