Título: Gravação compromete Eurides e Maristela
Autor: Mariana Santos
Fonte: Jornal do Brasil, 10/06/2005, Brasília, p. D1
O clima promete ser tenso no depoimento marcado para hoje na CPI da Educação. Subirá ao plenário para dar explicações sobre supostos esquemas nas licitações de Transporte Escolar o ex-subsecretário e ex-tesoureiro da campanha da deputada distrital Eurides Brito (PMDB), Manoel Carneiro. Munido de um CD com parte das sete horas de gravação feitas pelo ex-presidente da Comissão Permanente de Licitação (CPL) Antônio Ferreira César, Carneiro divulgará graves denúncias contra as ex-secretárias de Educação Eurides e Maristela Neves, atual consultora jurídica do GDF, e contra os servidores Gibrail Gebrim, diretor de Engenharia de Manutenção e Produção, além de Hélvia Paranaguá e Elisabeth Marinini. O JB teve acesso ao conteúdo das fitas que foram condensadas em CD e que será apresentado hoje à CPI. Bastante editado e de difícil audição em algumas partes. Em outros, o som é mais claro e em um desses trechos Eurides comenta com Antônio César os ''esquemas'' em processos de licitação como se fossem usuais: ''você já imaginou alguma comissão de licitação em qualquer repartição que não tem esquemas?''. Ainda em conversa com o servidor - que afirmou ter ficado mais de um ano como funcionário fantasma, ou seja, recebendo sem aparecer na secretaria - ela diz:
- O problema agora é ter havido o almoço, onde eu mandei o Achilles desclassificar o Valmir Amaral, porque ele não ajudou na minha campanha e nem ajudou na do Roriz.
Nas gravações, Maristela, que deixou a secretaria em março, mostra-se bastante incomodada com a influência da distrital na pasta. Ela revela a ''estrutura'' de Eurides com três mil cargos indicados para cabos eleitorais na secretaria, mais cargos no programa Renda Minha, 150 dentistas, 350 visitadores escolares. Maristela ainda acusa a deputada - que, segundo suas recomendações ''não deve correr nenhum risco'' - de ter articulado a greve no início deste ano letivo.
- Ela [Eurides]articulou a greve. Aquele momento em que a Cida do DRH [chefe do Departamento de Recursos Humanos]que todo mundo pediu exoneração, e aquela carta que foi parar no site que a Cida fez me detonando, hoje ela volta como diretora do DRH. (...) Pra mim (sic) botar as crianças sem escola para que o governador pudesse me tirar.
Gibrail, Hélvia e Elisabeth são acusados de serem os executores de um esquema supostamente comandado por Maristela e Eurides, que teria continuado com forte influência na pasta mesmo depois de sua saída do cargo, em 2002. Gibrail e Hélvia já foram ouvidos pela CPI, mas negaram qualquer envolvimento ilícito. Elisabeth, no entanto, aparece em um dos trechos, reconvocando Reginaldo Cordeiro, ex-integrante da CPL, que estaria assinando o ponto e recebendo salário sem trabalhar.
Na tarde de ontem, Manoel Carneiro recebeu a reportagem do JB em sua residência, acompanhado de Antônio César, de Achilles de Santana, que presidiu a CPL entre 1999 e agosto de 2003, e do deputado José Edmar (Prona), que logo deixou a casa. Ele fez questão de mostrar o laudo técnico feito em três das sete fitas pelo perito Ricardo Molina, da Universidade de Campinas. O custo do laudo c R$ 6,4 mil e rateado entre eles.
Um dos primeiros a depor na CPI, ainda em abril, Achilles denunciou possíveis fraudes nas licitações. Em 1999, quando a empresa Juiz de Fora venceu a concorrência para prestar serviços de limpeza, segundo Achilles, a então secretária Eurides o chamou em seu gabinete para apresentar Nelson Lawal, proprietário da Juiz de Fora, como futuro vencedor do processo. Há suspeitas de fraudes nesta licitação. A Polícia Civil comprovou o arrombamento do armário onde estavam guardados os envelopes com as propostas.
No dossiê em áudio elaborado pelo grupo, constam ainda trechos das fitas gravadas por Carneiro, presidente do Prona-DF, com os diretores das empresas Juiz de Fora e Jovem Turismo, nos quais eles revelam que Eurides nomeia os contratados por estas empresas, supostamente para abrigar cabos eleitorais, e duas, três vagas ocupadas por apenas um funcionário, que recebia os salários acumulados.