Título: Jefferson: mensalão vinha de estatais
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Fonte: Jornal do Brasil, 12/06/2005, País, p. A7
O presidente do PTB rompe o silêncio e diz que mesada a parlamentares era paga com dinheiro vivo trazido em malas.
Pivô da mais dramática crise política enfrentada pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o deputado Roberto Jefferson (PTB-SP) voltou a atacar. Depois de uma semana de silêncio, o presidente do PTB denunciou novos detalhes do ''mensalão'', mesada que seria paga a parlamentares para votar projetos de interesse do Palácio do Planalto. Na nova entrevista que concedeu à Folha de S.Paulo, Jefferson informou que os recursos para alimentar o esquema vinham de estatais e de empresas privadas. Esse dinheiro, segundo ele, chegava a Brasília ''em malas'' para ser distribuído em ação comandada pelo tesoureiro do PT, Delúbio Soares, com a ajuda de ''operadores'' como o líder do PP na Câmara, José Janene (PP-PR), e o publicitário Marcos Valério, dono das empresas DNA Propaganda e SMP&B, ambas de Belo Horizonte.
- Este dinheiro chega a Brasília, pelo que sei, em malas - afirmou o deputado, garantindo que as direções do PP e do PL recebiam diretamente os recursos para pagar o mensalão.
Contrariando os rumores espalhados por Brasília durante a semana, o presidente do PTB negou ter gravações comprometedoras contra autoridades do governo, mas prometeu que, no depoimento que fará na Câmara terça-feira, contará tudo o que ''vivenciou'' na relação que teve com o PT durante o mandato do presidente Lula.
Roberto Jefferson afirmou que, em troca de apoio ao governo, os petistas financiariam campanhas municipais do PTB em 2004. Teria sido aprovada verba de R$ 20 milhões.
- O primeiro recurso chegou na primeira quinzena de julho: R$ 4 milhões, em espécie - descreveu. - Quem trouxe à sede do PTB foi Marcos Valério em malas de viagem. Eu e Emerson Palmiere, tesoureiro informal do PTB, dividimos esses recursos entre os candidatos.
Segundo Jefferson, o PT assumiu o compromisso de que outras parcelas viriam. No entanto, as parcelas seguintes não chegaram às mãos do PTB, ''tensionando'' a relação do seu partido com o PT.
Na entrevista, o deputado volta a poupar o presidente Lula - que ''não tinha conhecimento do pagamento do mensalão'' - mas faz o oposto com o chefe da Casa Civil, José Dirceu, e com os demais integrantes do que ele chama de ''cabeça'' do PT: José Genoino, Delúbio Soares, Silvio Pereira e Marcelo Sereno. Narrou suas reuniões com esse time para tratar de distribuição de cargos em uma sala ''reservada ao Silvio Pereira'', ao lado do gabinete de Dirceu.
O deputado afirmou não ter temer por sua segurança:
- Depois do que já disse, se fizeram alguma coisa comigo, cai a República.
A cúpula petista esperou com tensão as declarações de Roberto Jefferson. O presidente do partido, José Genoino, o tesoureiro Delúbio Soares e o líder do governo na Câmara, Arlindo Chinaglia, passaram o dia à base de café, trancados numa reunião.
O ministro José Dirceu, por outro lado, tentou demonstrar tranqüilidade. À tarde, enquanto almoçava num luxuoso restaurante no bairro dos Jardins, em São Paulo, o chefe da Casa Civil afirmou:
- Ainda não li, mas pelo que me disseram é tudo mentira.
Dirceu parecia descontraído e brindou com champanhe Veuve Cliquot o aniversário da filha, Joana.