Título: Guantánamo: a realidade por trás das grades
Autor: Olivia Hirsch
Fonte: Jornal do Brasil, 12/06/2005, Internacional, p. A14

''Allah Al-Akbar!'', ou ''Deus é grande'', serve como último apelo. No interrogatório de um dos mais de 500 detentos muçulmanos mantidos na base americana de Guantánamo, em Cuba, a interrogadora tira a blusa e pressiona os seios contra as costas do prisioneiro. Depois, atira tinta vermelha em seu rosto e diz que é sangue menstrual. Não satisfeita, ameaça desligar a água da cela para que o homem não possa se lavar antes de rezar. O objetivo é encontrar uma maneira de afastar o detento de Deus, sua fonte de força, conta Erik Saar, americano que passou seis meses como tradutor durante os interrogatórios na base.

- Muitas pessoas, na época, tentavam me convencer de que isso não era nada demais - conta ao Jornal do Brasil Saar, autor do livro Inside the wire (Dentro do arame), o primeiro escrito por alguém da base. O material foi lançado recentemente nos Estados Unidos.

Noutra revelação bombástica, ele conta como se realizavam interrogatórios falsos, a fim de impressionar autoridades e executivos que visitavam a prisão, batizada pela Anistia Internacional de o ''gulag'' americano, em referência aos campos de trabalho forçado na União Soviética.

- Interrogatórios de meses atrás com pessoas que tinham sido cooperativas e fornecido informações relevantes para a Inteligência eram simplesmente repetidos. Esta era uma determinação que vinha da liderança da prisão - denuncia o ex-sargento. - Durante o tempo em que estive lá isso ocorreu umas cinco ou seis vezes.

Para o autor, que deixou o Exército depois da experiência em Guantánamo, os abusos são ''inevitáveis'', fruto de um ambiente onde, intencionalmente, não existem regras claras sobre o que é certo ou errado, o que dá mais liberdade aos interrogadores para que usem táticas questionáveis. Este fato, segundo ele, também foi constatado na prisão iraquiana de Abu Ghraib, palco do escândalo de abusos e maus-tratos contra detentos, deflagrado no ano passado.

Até as denúncias feitas pela revista americana Newsweek, que afirmou que o Corão fora atirado no vaso sanitário, podem ter sido causadas pela falta de clareza nos comandos. Saar negou ter presenciado tal situação, mas contou que durante as inspeções feitas nas celas muitas vezes os agentes não sabiam sobre a proibição de não-muçulmanos de manusear o livro sagrado islâmico.

- Acho que tudo isso pode trazer graves implicações para a guerra ao terror. Os muçulmanos têm uma certa razão ao dizer que nós, americanos, somos hipócritas, pois afirmamos que queremos promover os direitos humanos, a justiça e liberdade ao redor do mundo, mas o que acontece em Guantánamo, por exemplo, não serve de exemplo para isso - afirma. - A longo prazo, acredito que a implementação dessa política acaba fomentando o terrorismo. Dissuadir essas pessoas seria um fator fundamental na guerra ao terror, mas definitivamente estamos fazendo um mau trabalho nesse sentido.

Ao chegar à base em Cuba, em dezembro de 2002, o tradutor acreditava que trabalharia na prisão que protegia o Ocidente do que há de ''pior entre o pior'' no terrorismo - imagem transmitida pelo Pentágono. Mas, aos poucos, com a facilidade de falar árabe e se comunicar com os detentos, concluiu que o lugar abriga, em sua maioria, pessoas que não representam qualquer perigo aos EUA ou ao mundo, mas lá são mantidas por falta de acesso à Justiça.

- É claro que há aqueles que planejam ataques terroristas, tiveram ligações com os atentados de 11 de Setembro e possuem informações relevantes para a Inteligência, mas na verdade são poucos os que se incluem nessa categoria - garante. - Na minha opinião, a prisão deveria ser fechada, pois é contraprodutiva.

A visão de Saar é compartilhada também pelo ex-presidente americano Jimmy Carter, prêmio Nobel da Paz. Na última semana, o ex-governante fez um apelo para que a prisão seja fechada ''o quanto antes'', a fim de ''demonstrar o compromisso dos Estados Unidos com a proteção dos direitos humanos''. Em um informe, a organização que lidera defende ainda a formação de uma comissão independente habilitada a investigar os locais de detenção de supostos terroristas em poder de americanos.

A resposta imediata do secretário de Defesa, Donald Rumsfeld, foi de que o país dá aos prisioneiros de Guantánamo um ''tratamento humano, em um ambiente seguro''. Mas nem o presidente George Bush parece estar tão convencido disso. Ele concordou na quarta-feira em avaliar ''todas as alternativas'' sobre o futuro da prisão cravada no território de Fidel Castro.