Título: G-8 anula US$ 40 bi em dívidas
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Fonte: Jornal do Brasil, 12/06/2005, Internacional, p. A15

Lista dos 18 países pobres beneficiados inclui nações da África e da América Latina, entre elas a Bolívia.

LONDRES - As oito nações mais industrializadas do mundo fecharam, ontem, um acordo histórico para perdoar mais de US$ 40 bilhões (R$ 100 bi) em dívidas de países pobres. A medida, que tem como objetivo libertar parte da África de sua herança de fome e doenças, foi tomada pelos ministros da economia do G-8 depois de meses de tensas negociações.

- Estamos conscientes da miséria abjeta que tantas nações e indivíduos enfrentam. Fomos conduzidos pela necessidade urgente de agir - disse o ministro da economia britânico, Gordon Brown.

Segundo ele, a lista de 18 países beneficiários - nem todos africanos - pode ser ampliada nos próximos anos. Com o acordo atual, foram favorecidos Benin, Bolívia, Burkina Fasso, Etiópia, Gana, Guiana, Honduras, Madagascar, Mali, Mauritânia, Moçambique, Nicarágua, Níger, Ruanda, Senegal, Tanzânia, Uganda e Zâmbia. A maioria pertence à porção subsaariana do continente, a mais pobre e onde a Aids atinge proporções epidêmicas.

Outras 20 nações são candidatas ao perdão futuro, desde que mantenham a transparência e combatam a corrupção, medidas para garantir que a anulação resulte em investimentos em educação, saúde e outras áreas. Com isso, o montante de dívidas incluídas no pacote poderia subir para US$ 55 bilhões.

O acordo tem a participação do Banco Mundial, do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Fundo de Desenvolvimento Africano. Com o perdão, as nações beneficiadas vão economizar US$ 1,5 bilhão ao ano.

Ontem, líderes africanos e organizações não-govenamentais comemoraram o acordo, embora alguns tenham questionado os critérios para a escolha dos beneficiários.

- O cancelamento das dívidas vai aliviar nosso orçamento. Com isso, teremos verba suficiente para aplicar em educação, saúde e outros setores sociais - disse o ministro da economia da Zâmbia, Ng'andu Magande.

As críticas vieram de grupos como o ActionAid, que se queixam da abrangência do pacto firmado:

- É uma boa notícia para esses 18 países, que vão se beneficiar imediatamente do perdão. Mas não vai fazer quase nada por milhões de pessoas em pelo menos 40 outros países que também precisam aliviar suas dívidas - disse Romilly Greenhill, da ActionAid.

Esta é a segunda vez que Brasil, China, Índia e África do Sul, os principais países em desenvolvimento, participam de uma reunião de ministros da economia do G8. Em um café da manhã antes da aprovação do pacto, o ministro da Fazenda brasileiro, Antônio Palocci, havia manifestado confiança na aprovação da anulação das dívidas.

As controvérsias na negociação do acordo foram provocadas pela posição de liderança ocupada pelo ministro britânico, que fez da questão uma cruzada pessoal. Segundo um dos representantes do G-8, os alemães acusam Brown de ter manipulado a mídia para acelerar o processo. Inicialmente, a proposta seria fechar acordos isolados com os países beneficiados. A primeira lista era bem menor do que a aprovada.

Mesmo com essas resistências, Brown planeja reunir aliados em mais uma causa: dobrar a ajuda financeira ao continente a ser aprovada em um encontro em Gleneagles, na Escócia, no próximo mês.

- Esta não é a hora para timidez e sim para ousadia, assim como também é o momento de não se contentar com pouco e mirar alto - afirmou Brown.

Ele procurou apoio na International Finance Facility (IFF) para elevar para US$ 100 bilhões a ajuda financeira aos africanos, mas enfrenta oposição dos Estados Unidos e do Japão. Brown também disse que os ministros estudam novas atitudes para combater a Aids e tentar garantir, até 2010, o acesso universal a remédios para combate à doença.