Título: Militares pressionam por aumento
Autor:
Fonte: Jornal do Brasil, 11/06/2005, País, p. A2

Não bastasse a crise que atingiu o governo depois das denúncias de mensalão no Congresso, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva enfrenta agora um aumento da insatisfação do militares com a falta de reajuste salarial. A temperatura teria subido em função de promessas de aumento não cumpridas. Preocupado, Lula se reuniu na noite de ontem com os ministros do Planejamento, Paulo Bernardo, da Casa Civil, José Dirceu, interino da Fazenda, Murilo Portugal, e da Defesa, vice-presidente José Alencar, para discutir um auxílio imediato às Forças Armadas.

O comandante da Marinha, almirante Roberto de Guimarães Carvalho, verbalizou a insatisfação no evento que marcava os 140 anos da batalha naval de Riachuelo, considerada a principal solenidade anual da Marinha.

- A inexistência de inimigos e ameaças claramente configurados não significa, em absoluto, que a Força Naval não tenha dificuldades. Elas existem e algumas são bastante sérias, implicando em riscos. Todas são do conhecimento dos escalões superiores da cadeia de comando.

O comandante disse ter preocupação com o clima nos quartéis e defendeu o dobro do orçamento atual (R$ 1,1 bilhão autorizado em 2005 para investimento) para resolver os problemas da Marinha. Segundo Carvalho, existe insatisfação na tropa, mas os chefes estariam conseguindo conter os subordinados.

- Existe um pleito que é justo e reconhecido pelo próprio presidente. Estamos aguardando solução - afirmouo comandante, defendendo que o governo dobre o orçamento da Marinha.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva cancelou sua ida à cerimônia comemorativa da Marinha, enviando uma mensagem em que diz que é compromisso de governo recuperar o poder aquisitivo dos militares e reaparelhar principalmente a Marinha.

O vice-presidente e ministro da Defesa, José Alencar, representou Lula no evento e voltou a defender o reajuste salarial. Segundo ele, o ideal seria de mais de 30%, já descontados os 10% concedidos no ano passado.

- Vocês sabem perfeitamente que o nosso presidente é um homem de grande sensibilidade social, tem grande compreensão para todo esse problema, ele sabe que isso precisa ser resolvido - disse Alencar.

Além da insatisfação com as atuais condições das Forças, contribuía para o constrangimento na solenidade a ausência de Lula e de vários ministros que foram chamados para receber medalhas da Ordem do Mérito Naval.

Logo após, foi lida a ordem do dia assinada por Carvalho. Ao dizer que hoje a situação é diferente, o almirante faz um alerta.

- Não devemos nos iludir com essa falsa sensação de segurança, pois ela também ocorreu entre Riachuelo e a Primeira Guerra Mundial e entre os dois conflitos mundiais. Todos nós temos a obrigação de não esquecer as lições da história - afirma Carvalho na ordem do dia.

Os reclamos não são novidade. No ano passado, por conta disso, o então ministro da Defesa José Viegas teve de enviar um ofício a Marinha, Exército e Aeronáutica para desautorizar os comandantes a qualquer tipo de manifestação sobre os soldos dos militares.