Título: Trégua já nasce frágil
Autor: Sheila Machado
Fonte: Jornal do Brasil, 11/06/2005, Internacional, p. A7
A posse do presidente Eduardo Rodríguez na conturbada Bolívia abriu ontem uma trégua de duração incerta com os mineiros e camponeses, que mantêm a demanda de nacionalização dos recursos de gás natural e ameaçam continuar exercendo pressão. Segundo analistas, Rodríguez deve convocar eleições gerais - presidenciais e parlamentares - entre três e seis meses, possivelmente em dezembro.
- O governo de Rodríguez será fraco, porque não tem apoio parlamentar nem social. A melhor tática é convocar o pleito o quanto antes - explica ao JB o sociólogo Alvaro Linera.
Segundo o boliviano, apesar de não ser tenso como nas últimas três semanas, tampouco será calmo o ambiente político no país.
- Os setores em conflito continuarão exigindo nacionalização dos hidrocarbonetos, autonomia regional e Assembléia Constituinte. A tensão tende a diminuir, mas não desaparecerá - afirma.
Rodríguez chegou à tarde ao Palácio Quemado, em La Paz, onde se reuniu com o ex-presidente Carlos Mesa, que o colocou a par da complicada agenda política nacional.
- Constituinte, autonomias e a política energética, com tudo que isso agrega, são temas inevitáveis na gestão de transição e são a minha prioridade - confirmou o novo líder, de madrugada, ainda em Sucre.
Embora não tenha nomeado seu gabinete, Rodríguez afirmou que seus ministros serão ''gente comprometida, com vontade de trabalhar a toda prova e que tenha máxima integridade''.
A mudança no Palácio Quemado surtiu efeito nas ruas. Ontem, os movimentos sociais liderados pelo Movimento ao Socialismo (MAS) começaram a se aquietar.
- É importante ceder um pouco - justificou o líder do MAS, Evo Morales.
Os indígenas de Santa Cruz de la Sierra, Tarija e Cochabamba, liderados por Roman Loayza, também aderiram à trégua.
- Vamos dar a Rodríguez dez dias de prazo para anunciar o pleito geral ou voltaremos a bloquear as estradas - ameaçou Loayza.
Mais tarde, indígenas e mineradores - que prometiam não permitir que o presidente do Senado, Hormando Vaca Díez, e o da Câmara dos Deputados, Mario Cossío, se valessem da sucessão constitucional - deixaram Sucre. Ao mesmo tempo, os bloqueios nas estradas estavam sendo levantados, paulatinamente.
Em La Paz, com 1 milhão de habitantes, o colapso dos últimos dias dava lugar a um início de normalização do abastecimento, com a chegada de alimentos, combustíveis e gás em botijão. Entretanto, ainda falta gasolina. O transporte público voltou a funcionar, mas timidamente. Os controladores de vôo do aeroporto internacional, em El Alto, também suspenderam a greve. Mas viajantes sentiam dificuldade em chegar ao local, pois alguns pontos da estrada se mantinham interrompidos.