Título: Tião Vianna sugere renúncia coletiva de petistas
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Fonte: Jornal do Brasil, 14/06/2005, Brasil, p. A4
Palocci defende permanência de Dirceu, considerada 'insustentável' por Pedro Simon
O primeiro vice-presidente do Senado, Tião Viana (PT-AC), propôs ontem que Lula substituísse todos os cargos da administração federal ocupados por petistas, contrariando a percepção do líder do governo na Câmara, Arlindo Chinaglia, de que as pressões por uma reforma ministerial viriam apenas da oposição.
Sem aval de caciques do partido, Viana foi à tribuna pedir que todos os ministros do PT - com exceção de Antonio Palocci (Fazenda) - coloquem seus cargos à disposição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em reação às acusações de corrupção. A atitude funcionaria como um sinal de apoio ao governo e forma de desvincular a sigla das acusações de aparelhamento do Estado.
- Nós, filiados do PT, poderíamos dar um prazo de no máximo 60 dias para uma transição. Para que o presidente pegasse todos os filiados ao PT em cargo de confiança, e que esses cargos fossem preenchidos por servidores de carreira ou concursados - argumentou o senador.
Após ''conversas com outros senadores petistas'', Viana avaliou que esse movimento lavaria a honra do PT, ajudaria Lula a governar e salvaria os ministros José Dirceu (Casa Civil) e Aldo Rebelo (Coordenação Política) de irem à forca sem provas, depois das acusações de conivência com a corrupção feitas pelo presidente do PTB, Roberto Jefferson.
- Escolheram o Dirceu para espantalho, para bater. Não podemos aceitar isso - justificou.
- Só um nome é inatingível, o de Palocci, em nome da proteção institucional do país - complementou.
O líder do governo no Senado, Aloizio Mercadante (SP), discordou de Viana.
- Não acho que se faz governo entregando cargos. Deve-se mexer onde há problema de desempenho.
O senador Eduardo Suplicy (PT-SP) afirmou que a proposta de afastamento de petistas que ocupam cargos de confiança no serviço público ''merece ser seriamente estudada'', mas afirmou que se faz necessário estabelecer um tempo para que os servidores de carreira ou concursados pudessem se adequar a estas funções.
Para o senador Pedro Simon (PMDB-RS), que participou das CPIs que levaram ao impeachment do presidente Fernando Collor e à cassação de 10 parlamentares por corrupção na CPI do Orçamento, Lula precisa ''agir rápido e passar das palavras à ação, se não quiser perder totalmente a credibilidade, pois as denúncias estão atingindo sua figura''.
- A situação de Dirceu ficou insustentável - afirmou.
Da Argentina, Antonio Palocci afirmou que uma eventual saída de cena nesse momento de Dirceu, seria uma perda para o governo Lula. Ele afirmou não acreditar que o chefe da Casa Civil tomará a decisão de sair do cargo.
- José Dirceu é muito importante para o desenvolvimento e coordenação do nosso governo. Tenho tido uma relação muito forte com o ministro, tenho tratado questões do governo quase que diariamente com o Dirceu.
Palocci se negou a comentar as novas declarações de Roberto Jefferson, que reafirmou que ele e Dirceu sabiam do pagamento do ''mensalão'' a deputados de PP e PL.
- Não faço comentários sobre isso. Escrevi uma nota e reafirmo essa nota - declarou ele, que se reuniu ontem com o presidente argentino, Néstor Kirchner, e com o ministro da economia do país vizinho, Roberto Lavagna.
Palocci isse ainda que situações como a atual exigem ''medidas enérgicas''.
- Se houver culpados, se houver punição a ser dada, deve ser feito. Se houver fatos apurados deve-se dar consequência a isso.
Segundo ele, o governo deve enfrentar a crise com ''serenidade'' e ''tranquilidade''.
- Essas crises não custam ao país se o país souber lidar com isso de maneira adequada - disse, acrescentando que o mais importante é que a Polícia Federal, o Congresso e a Justiça esclareçam os fatos ''com toda transparência''.
- Há um conjunto de questões levantadas, e só podemos dizer o que é real se houver uma apuração. O pior dos caminhos é se cada um de nós disséssemos o que achamos. O que eu acho sobre tudo isso não importa, o que importa é que sejam apuradas essas questões, que sejam esclarecidas e que sejam tomadas medidas.