Título: Todas as atenções para Roberto Jefferson
Autor: Paulo de Tarso Lyra e Renata Moura
Fonte: Jornal do Brasil, 14/06/2005, Brasil, p. A7
Apreensivos, parlamentares governistas e oposicionistas discutem se presidente do PTB, que depõe hoje, está ou não blefando
É enorme a apreensão sobre o depoimento marcado para hoje no Conselho de Ética da Câmara do presidente nacional do PTB, deputado Roberto Jefferson . Ele falará sobre as denúncias de distribuição de mesadas a deputados do PP e PL, que receberiam R$ 30 mil do PT pelo apoio a projetos do governo de Luiz Inácio Lula da Silva.
O depoimento, que será transmitido ao vivo, é aguardado com tensão por governistas e oposicionistas. No Planalto, há quem pense que Jefferson está blefando. A avaliação ganhou força após a entrevista do fim de semana, quando afirmou não ter provas sobre o mensalão.
Outros apostam, no entanto, que dificilmente, um parlamentar, ex-comandante da tropa de choque de Fernando Collor, vá para a forca imolar-se sozinho.
- Ele está agindo como um seqüestrador que pega a vítima. Para provar o crime, manda um dedo, depois manda uma orelha. Vamos ver até onde ele vai - exemplificou um deputado que comanda importante partido aliado.
O PP decidiu entrar na justiça contra Roberto Jefferson. O líder do partido na Câmara, José Janene (PR), protocolou uma queixa-crime e uma ação por danos morais no Supremo Tribunal Federal.
O presidente do PTB acusou Janene de ser um dos operadores no esquema de pagamento de mesadas a deputados para que estes votem com o governo.
- O PP está absolutamente tranqüilo. O que ele vai dizer em seu depoimento, eu não sei. Só posso responder em relação as pontos em que o deputado nos atacar - rebateu Janene.
A outra mira do PTB, o PL, também tenta passar uma imagem de despreocupação com as palavras que Jefferson possa vir a pronunciar. O deputado Sandro Mabel afirma que seu partido não ficará em silêncio diante de um chantagista.
- Estamos calçados. Fomos nós quem propusemos a CPI do Mensalão e demos entrada no Conselho de Ética da Câmara.
Falar em público é fácil. Nos bastidores, contudo, corre uma energia estática, dando choque em parlamentares do Congresso. Ninguém sabe ao certo o que o presidente do PTB poderá dizer hoje. Nem seus correligionários. Pessoas próximas ao petebista garantem que ele não está comentando seus atos e decisões recentes. Na última quinta-feira, essa cena se repetiu: Jefferson garantiu que não conversaria com ninguém até seu depoimento no Conselho de Ética. A cúpula partidária viajou tranqüila: o ministro Walfrido Mares Guia para Minas e os deputados Luiz Antônio Fleury Filho (SP) e José Múcio Monteiro (PE) para seus respectivos Estados.
- Quando abrimos os jornais no domingo, ele estava falando novamente - lamentou um correligionário.
A estratégia de Jefferson também mudou desde a semana passada. Um dos seus interlocutores, deputado Nilton Capixaba ouviu do presidente do partido que só falaria em uma CPI. No mesmo dia, aceitou convite para depor no Conselho de Ética.
Para evitar que a crise se agrave, só duas fontes de informação estão autorizadas: pelo partido, fala o deputado Luiz Antônio Fleury Filho (SP). Pela bancada, quem pode se pronunciar é o líder José Múcio Monteiro (PE). Nenhum dos dois forneceu qualquer pista sobre os rumos de Jefferson.
Jefferson pode estar guardando o que sabe para expor em uma CPI. Hoje, a oposição vai protocolar um pedido de comissão parlamentar mista para investigar o mensalão. Uma CPI tem poderes para quebrar sigilos bancários, fiscal e telefônico, enquanto o Conselho de Ética conseguiria, no máximo, solicitar a quebra do sigilo bancário - assim mesmo, com o pedido tendo que ser votado em plenário. Pelo regimento, o presidente do PTB, caso não disponha de provas materiais, poderá apresentar até amanhã uma testemunha que comprove suas denúncias e acusações.
Para um petista, chamou a atenção o fato de Roberto Jefferson duvidar que o chefe da Casa Civil, ministro José Dirceu, ouse desmenti-lo.
- Ele pode ter alguma gravação da conversa que teve com Dirceu e o ministro da Coordenação Política, Aldo Rebelo, há duas semanas - suspeitou o parlamentar.
Jefferson vai depor às 14 horas no Conselho de Ética da Câmara dos Deputados, com transmissão ao vivo pela TV Câmara e TV Senado.