Título: Casal foi seqüestrado e torturado
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Fonte: Jornal do Brasil, 15/06/2005, Internacional, p. A9
BUENOS AIRES, Argentina - - O caso em que a Suprema Corte se baseou para derrubar as Leis do Perdão é dramático e apura acusações de seqüestro contra Julio Héctor Simón, militar também conhecido como ''Turco Julián''.
José Liborio Poblete era um torneiro mecânico chileno de 23 anos, que perdeu as pernas no início da década de 70, depois de ser atropelado por um trem em Santiago. Acabou chegando a Buenos Aires para tratamento em um instituto de reabilitação da capital argentina e se engajando na militância política durante a ditadura militar no país.
Foi quando Poblete conheceu sua futura mulher, Marta Gertrudis Hkaczik, estudante de psicologia dois anos mais jovem. Começaram a namorar e em pouco tempo passaram a integrar o grupo Cristãos Pela Libertação. A partir de então entraram para a clandestinidade.
No dia 27 de novembro de 1978, Poblete foi seqüestrado na Praça Onze, vizinha a um dos principais terminais de trem de Buenos Aires.
Quase ao mesmo tempo, um grupo de policiais de Buenos Aires foi à sua casa, na periferia ao Sul da cidade, em Guernica, onde tirou seu bebê à força dos braços da mulher.
Um mês mais tarde, Marta Gertrudis foi autorizada a se comunicar com sua mãe por telefone. Ela chegou a perguntar pela filha e se os policiais lhe haviam entregue o bebê. Mas a ligação foi interrompida e nunca mais se teve notícias da família.
A última vez em que os dois foram vistos foi em janeiro de 1979, e testemunhas - outros prisioneiros - afirmaram que ambos foram torturados.
Outras testemunhas contaram que o torneiro mecânico chileno foi retirado de sua cadeira de rodas, encontrada dois dias depois em um estacionamento.
Segundo relatos de sobreviventes, o casal foi mantido no campo de concentração conhecido como ''El Olimpo'', nas dependências da polícia federal no bairro de Flores.
A filha viveu o drama de dezenas de crianças nascidas durante a ditadura militar. Foi entregue a um tenente-coronel e sua identidade só foi descoberta duas décadas depois graças a uma denúncia do grupo Avós da Praça de Maio.
Passados 22 anos do seqüestro, o tenente-coronel Ceferino Landa e sua mulher, que criaram Claudia sem lhe contar o que acontecera com sua família, foram condenados em junho de 2001 a nove anos e meio de prisão, respectivamente.
O casal foi condenado por ter mantido e ocultado uma criança menor de 10 anos. Mas o marido obteve pena maior por ter, além disso, falsificado documentos quando registrou a menina.
O casal José Liborio e Marta Gertrudis Poblete consta até hoje na lista de presos políticos desaparecidos durante a ditadura militar na Argentina.