Título: Passo para mudar
Autor:
Fonte: Jornal do Brasil, 15/06/2005, Opinião, p. A12

Goste-se ou não do deputado Roberto Jefferson, reconheça-se ou não a legitimidade dos métodos e intenções do homem-bomba do PTB, o longo e ruidoso depoimento no Conselho de Ética da Câmara escancara as vísceras de um sistema político apodrecido pelas práticas espúrias e gestos moralmente repudiados pela sociedade. Jefferson reafirmou as fragorosas denúncias emitidas nas duas entrevistas que concedeu nas últimas semanas. Repetiu acusações, elegeu desafetos, sublinhou nomes e atos abomináveis. Adicionou novos ingredientes, incluindo outros atos de improbidade, desta vez no financiamento de campanhas eleitorais. Sem provas. Repeliu os próprios equívocos sob a proteção das disputas político-partidárias. Defendeu o PTB e a inocência do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Tudo somado, porém, confirma-se a profunda gravidade das denúncias que hoje espalham um ar terrivelmente nebuloso sobre Brasília. Todos são inocentes até prova em contrário, insiste uma regra jurídica elementar. Mesmo as mentes mais inocentes, contudo, percebem que, sob os destroços deixados pelas denúncias de Jefferson, escondem-se verdades nada edificantes - capazes de pôr em xeque a classe política. Afundados na incredulidade popular, muitos representantes têm levado para o ralo da degradação ética todos os políticos. O depoimento deixa de saldo, assim, a convicção de que o país atravessará um longo processo que deverá abalar a vida política brasileira até a eleição do próximo ano. As conseqüências, obviamente, são imprevisíveis. É certo, no entanto, que o sistema jamais será o mesmo depois disso.

Dos tumores expostos pelos últimos episódios, nasce uma oportunidade sem par para uma repactuação no modo de fazer política no Brasil. Baseado em premissas antigas e ultrapassadas, tisnado por modelos anacrônicos de relações entre representantes, partidos e poderes, o arcabouço institucional exige reparos, capaz de reduzir a padrões razoavelmente aceitáveis os vícios que fazem nossa política agonizar. O trabalho do Conselho de Ética na representação contra Roberto Jefferson pode constituir-se num bom começo para romper com uma história contínua de mediocrização do Parlamento. Eliminada a arrogância e ignorada as tentações de julgar liminarmente os colegas, os integrantes do conselho têm o dever moral de dar um passo significativo para elevar o nível da política, em geral, e do Congresso, em particular.

Afinal, são cada vez mais insistentes os exemplos de que nossos representantes não acompanharam os saltos de modernização constatados na sociedade brasileira. A reforma política - unanimemente apregoada em momentos de crise aguda - não removerá de uma vez por todas os vícios do modelo atual. Dela não brotará, de um dia para o outro, uma nova democracia - robusta, eticamente límpida e balizada por práticas e negociações lícitas e própria das instituições mais saudáveis. Contudo, a maior transparência, a instituição de regras mais eficientes de controle e a criação de freios mais vigorosos contra a esperteza ajudarão a retomar a confiança da população. Eficiência, retidão e disposição para eliminar os piores exemplos - é isso que os cidadãos esperam dos representantes. Aspiram o mínimo, mas convivem com o desencanto. Há, porém, espaço para a mudança.