Título: Francesa ri com o cativeiro
Autor:
Fonte: Jornal do Brasil, 15/06/2005, Internacional, p. A14

PARIS - A ex-refém francesa Florence Aubenas, libertada no domingo, contou ontem detalhes de seu cativeiro no Iraque, sem deixar de lado o humor. Mas se recusou a fazer comentários sobre como ocorreu seu resgate.

A jornalista do Libération, contou que ficou os 157 dias em um colchão dentro de um porão escuro. Ela e seu guia iraquiano, Hussein Hanun Al Saadi, foram sequestrados quando faziam uma reportagem em um campo de refugiados, próximo a Bagdá, no dia 5 de janeiro.

A ex-refém foi imediatamente separada de Hussein e levada para um recinto com dimensões de quatro por dois metros e com um metro e cinqüenta de altura, sem luz. Florence ficava com as mãos atadas, inclusive para comer, e de olhos vendados.

- Todos os dias ou tinha fome ou me sentia doente - afirmou Florence.

Para fazer o tempo passar mais rápido, contava ''os minutos, as palavras, os passos''. Essa estratégia lhe permitiu afirmar que dava ''24 passos ao dia'' (duas idas ao banheiro) e que tinha direito a dirigir ''80 palavras por dia'' aos seqüestradores.

Florence foi rebatizada de Leila e recebeu o código número 6 de seus algozes, que se apresentaram como membros de um movimento religioso sunita.

A jornalista contou que apanhou diversas vezes por ter se mexido sobre o colchão em que dormia. Também foi punida por ter supostamente conversado com outro refém, um homem, que foi levado para o porão e cuja identidade não conhecia. Aubenas descobriu dez dias antes do fim do seqüestro que o seu guia estivera preso no mesmo cativeiro e ficava a uma distância de ''80 centímetros'' dela.

Apesar das péssimas condições a que foi submetida, Florence provocou risadas na entrevista coletiva. Afirmou que os sequestradores lhe deram para vestir uma camiseta na qual estava escrito ''Titanic'' e que haviam lhe pedido o e-mail do presidente francês, Jacques Chirac.

Pouco antes de ser solta, o motorista dela sugeriu que desse aos seqüestradores o dinheiro que ainda levava.

Com um sorriso no rosto, comentou irônica: ''Eram uns US$ 180! Isso é caro! O hotel não valia isso tudo''.

Florence assegurou que nunca perdeu a esperança e nem o amor pelo povo iraquiano. Segundo ela, foi idéia do chefe dos seqüestradores, que era chamado de Boss ou Hadji, fazer a gravação de um vídeo no final de fevereiro, no qual ela pedia ajuda ao político conservador francês Didier Julia.

O chefe dos seqüestradores insistia que este deputado, segundo ele próximo do antigo regime de Saddam Hussein, ''tentaria libertá-la''.

Em Washington, o secretário de Defesa dos Estados Unidos, Donald Rumsfeld, admitiu que a segurança no Iraque não melhorou estatisticamente desde a queda de Saddam Hussein, em 2003. Mas garantiu que estão sendo deslocados mais militares americanos para o país e que os rebeldes serão derrotados.