Título: Fiéis ao Planalto comandam CPI
Autor: Paulo de Tarso Lyra
Fonte: Jornal do Brasil, 16/06/2005, País, p. A3
O senador Delcídio Amaral (PT-MS) foi eleito, no sufoco, presidente da CPI dos Correios. Delcídio recebeu 17 votos, contra 15 do senador César Borges (PFL-BA), em votação secreta realizada na tarde de ontem. O senador indicou o deputado Osmar Serraglio (PMDB-PR), um velho aliado do Planalto, como relator da comissão. Por isso a comissão já está sendo chamada de CPI chapa branca Os trabalhos começam para valer na próxima terça, com o depoimento do ex-chefe de departamento dos Correios, Maurício Marinho. O resultado da votação de ontem mostra que o esforço do Planalto para controlar a Comissão terá que ser mais intenso do que o realizado até o momento. No papel, o governo tem maioria na CPI: 19 contra 13 dos oposicionistas. Mas o pesadelo da votação secreta quase provocou mais uma derrota ao governo este ano: dois parlamentares aliados ''traíram'' a orientação do Executivo e votaram em César Borges (PFL-BA).
- Cada voto perdido conta dobrado, pois vai para a oposição. Mas os requerimentos serão apreciados em votação aberta. Esta foi a última votação secreta. Ufa! - resumiu o líder do PMDB no Senado, Ney Suassuna (PB).
O senador Delcídio Amaral (PT-MS) prometeu isenção, serenidade e responsabilidade na condução dos trabalhos da CPI. Negou que sua eleição, com a indicação de Serraglio para a relatoria, representa uma ''CPI chapa branca''. O petista chegou a abrir mão da indicação, mas foi convencido na manhã de ontem, após uma conversa com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
- O presidente Lula reafirmou o seu espírito de investigar tudo à exaustão. Repetiu, inclusive, a frase de que tudo seja apurado ''doa a quem doer'' - reforçou o petista.
Delcídio propôs a primeira reunião da CPI para a semana que vem, mas a oposição queria começar os trabalhos hoje, para não atrasar o início dos depoimentos. Acabou prevalecendo o meio-termo, em uma CPI que nasce marcada pela disputa acirrada: a comissão se reúne só na próxima terça, mas já toma o depoimento de Maurício Marinho, flagrado pegando R$ 3 mil em propinas.
- Essa primeira etapa não demonstra que eles querem investigar algo. Começar pelo Marinho é o mais óbvio - rebateu o deputado Antônio Carlos Magalhães Neto (PFL-BA).
A oposição comemorou o resultado. Desejou boa sorte para o petista, mas lembrou que o pefelista César Borges recebeu todos os 13 votos dos oposicionistas e ainda outros dois de quem teoricamente defende o Executivo.
- Quando o resultado foi anunciado, a palidez dos governistas denunciava o medo que eles tiveram da derrota - provocou o líder do PFL no Senado, José Agripino Maia (RN).
O líder do governo no Senado, Aloizio Mercadante (PT-SP) ponderou que não houve vetos ao nome de César Borges e sim uma avaliação política sobre os rumos da CPI. Lembrou que diversos acordos foram tentados - passando pela sugestão de nomes como Edison Lobão (PFL-MA), Sérgio Guerra (PSDB-PE) e até Rodolpho Tourinho (PFL-BA). Reforçou que Delcídio abriu mão de sua indicação, mas, como não houve avanços nas negociações, o governo buscou respeitar a proporcionalidade - o PT é a maior bancada na Câmara e o PMDB, no Senado.
Os oposicionistas rebateram, afirmando que o bloco PFL-PSDB-PSOL é maior - conta com 28 senadores, contra 24 do PMDB. O líder do PSDB na Casa, Arthur Virgílio (AM) foi irônico.
- Alguém me explica como 24 é maior do que 28. Estamos prestando um desserviço à matemática - provocou.
O senador Jefferson Peres (PDT-AM), que conduziu os trabalhos antes da eleição de Delcídio por ser o mais idoso dentre os componentes da CPI, acredita que o petista conseguirá realizar um bom trabalho. Mas isse se tiver sempre em mente o momento delicado vivido pelo Congresso.
- O senhor tem plena consciência da gravidade do momento. O resultado dessa CPI vai definir se o Congresso Nacional sairá enxovalhado ou dignificado - resumiu o pedetista.
O que faz o relator Escolhido como relator, o deputado Osmar Serraglio (PMDB-PR) é considerado um fiel aliado do governo e diz ter ¿boa relação¿ com o ministro José Dirceu (Casa Civil), um dos principais alvos das denúncias de Roberto Jefferson (PTB-RJ). O senador Delcídio Amaral (PT-MS) na sua aribuição d epresidente nomeou Serraglio como relator. A principal função do relator é definir qual será o roteiro da comissão de inquérito. Ele escolhe as prioridades e em que seqüencia as diligências e depoimentos serão feitos. Mas todas as decisões são votadas em plenário. No entanto, o relator é o primeiro a interrogar qualquer convocado e, por isso, dá o tom dos interrogatórios. Além disso, ele será o autor do relatório final da CPMI, com o resultado da comissão.
Atribuições do presidente O senador Delcídio Amaral Gomez (PT-MS), de 50 anos, teve ligação com PFL, PMDB, namorou os tucanos e entrou no PT em 2001, como ele mesmo afirma, pelas mãos do ministro José Dirceu (Casa Civil), um possíveis investigados pela CPMI. O presidente será o primeiro a receber qualquer documento que chegue à comissão, além disso, é ele que marca as datas e horários de sessões, além de definir se haverá trabalho durante o recesso. Com isso, ele define qual será o ritmo. Alguns parlamentares afirmam que a primeira sessão estar marcada para terça-feira é um sinal de que Delcídio não pretende imprimir um ritmo intenso à comissão. Finalmente, é ele quem encaminha ao relator os requerimentos dos integrantes do conselho de ética.