Título: Correios: Abin obedeceria Casa Civil
Autor: Hugo Marques
Fonte: Jornal do Brasil, 17/06/2005, País, p. A6
BRASÍLIA - Antes de deixar a cadeia, ontem, o agente do extinto Serviço Nacional de Informações (SNI) e capitão reformado da PM de Minas, empresário José Santos Fortuna Neves - suspeito de envolvimento com a filmagem da propina nos Correios - envolveu o ministro-Chefe da Casa Civil, José Dirceu, em mais uma confusão. Segundo Fortuna, o agente da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) Edgar Lange, o Alemão, revelou que estava fazendo levantamentos por determinação do ''Gabinete Civil da Presidência'', com o objetivo de retirar a empresa Unisys dos contratos do governo na Previdência Social e nos Correios.
A Abin informou que nunca houve determinação direta da Casa Civil para investigar a presença da Unisys nos Correios, mas confirmou uma investigação em curso sobre corrupção dentro dos Correios e da Previdência, que inclui contratos da Unisys. Para a Abin, Fortuna recorreu à estratégia de misturar fatos concretos com a ''teoria da conspiração'' para envolver o agora ex-ministro José Dirceu.
Não é nova a tentativa de retirar a Unisys dos contratos com o poder público. Em 10 de abril, o Jornal do Brasil publicou reportagem mostrando documentos confidenciais da Controladoria Geral da União com ''recomendações pendentes'' na Previdência Social. Entre eles, contratos da Unisys com falhas de execução, dependência tecnológica e custo adicional.
A PF não conseguiu ainda comprovar o envolvimento de Fortuna com as gravações nos Correios. Em seu depoimento, no entanto, o empresário deixa claro que o ex-chefe do Departamento de Contratações, Maurício Marinho - filmado embolsando propina - não vinha representando seus interesses no governol. Fortuna distribuiu o currículo de Marinho, inclusive para o deputado José Chaves (PTB-PB). No depoimento, o ex-PM declarou que se afastou do diretor ''quando percebeu sua ingratidão pelos esforços que teve em sua nomeação''. Fortuna jura que não tinha interesse em qualquer favorecimento ilícito na ECT.
O empresário não entrou em contradição em seu depoimento, ao contrário de seu advogado, Reginaldo Bacci. Ao sair da PF, Bacci declarou que o agente Alemão fez perguntas a Fortuna sobre a empresa Comam antes da divulgação da fita da propina, sugerindo que a Abin tinha todas as informações sobre a filmagem. A Comam pertence ao empresário Artur Wascheck Neto, responsável pela gravação.