Título: Apatia, a sombra por trás da eleição
Autor:
Fonte: Jornal do Brasil, 16/06/2005, Internacional, p. A7

TEERÃ - Terminou ontem a campanha para as eleições presidenciais do Irã, que serão realizadas amanhã. A surpresa foi o concorrente linha-dura Mohsen Rezaei ter retirado sua candidatura, ao avaliar a declaração de clérigos xiitas de que um número grande de conservadores em disputa - até ontem, quatro - poderia diminuir a chance de vitória. As pesquisas apontam que o moderado Akbar Hashemi Rafsanjani, presidente entre 1989 e 1997, lidera a corrida eleitoral, mas a vantagem não deve ser suficiente para evitar um segundo turno.

- Baseado na opinião de líderes religiosos anciãos, me retiro da corrida eleitoral para evitar a diversificação dos votos - disse o ex-chefe da Guarda Revolucionária.

Os três conservadores que permanecem na disputa são Ali Larijani, ex-chefe da rádio e TV estatal e favorito dos estrategistas linha-dura; Mohamed Bagher Qalibaf, ex-chefe da polícia; e o prefeito de Teerã, Mahmoud Ahmadinejad.

Depois que passou a adotar um discurso mais moderado, Qalibaf é quem vem crescendo nas pesquisas de opinião. Rezaei, por sua vez, não declarou apoio a nenhum dos colegas.

Enquanto isso, o líder linha-dura Mohamed Reza Erfani criticava a falha do grupo em não indicar apenas um candidato ao pleito:

- Todos aqueles que evitaram essa oportunidade histórica vão responder por isso neste mundo e no próximo.

Entretanto, o maior problema do pleito não é a falta de um favorito supremo ou a quantidade de candidatos radicais, mas o esperado alto índice de abstenção - analistas estão preocupados com a possibilidade de que se supere os 50% de 2004, quando foram eleitos deputados.

- A participação de 50% é aceitável, mas se for inferior a 40%, isso se converterá num problema - disse Mohamed Atrianfar, assessor de Rafsanjani.

Apesar de o apelo por boicote ser menor agora do que no pleito anterior, a desilusão com a falta de diversidade política continua.

- Não vou votar - assegura o comerciante Majid, de 60 anos. - O que nós conseguimos votando em Khatami?

Majid pertence ao amplo grupo de cidadãos para quem os oito anos de presidência de Mohamed Khatami, símbolo de esperança quando foi eleito, os fez perder a fé numa mudança pelas urnas. O líder foi eleito com uma participação de 80%, que caiu para 66% em sua reeleição em 2001, e só diminuiu desde então.

Os dirigentes não culpam o presidente pela apatia, mas o ''inimigo'', que quer impedir que o Irã realize seu projeto nuclear e deseja que os fundamentos revolucionários fracassem. O ''inimigo'', no geral, atende pelo nome de Estados Unidos.

- Eles usam todos os meios para desanimar os eleitores - declarou ontem o Guia Supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei.