Título: Grave incentivo à Aids
Autor: D. Eugenio Sales
Fonte: Jornal do Brasil, 18/06/2005, Outras Opiniões, p. A15

Em março último, o perigo da Aids foi largamente abordado pela imprensa. Tenho diante dos olhos abundante noticiário. Mais um esforço para despertar a opinião pública para o assunto e sua gravidade. A ciência ainda não encontrou solução. Apesar dos esforços da medicina, os remédios existentes não curam. Prolongam a vida e diminuem o sofrimento dos afetados. A lista dos remédios e de preservativos não inclui, entre nós, a abstinência sexual. No entanto, ela é, até o momento, o meio seguro para evitar contrair a enfermidade. Quando há alguma referência, fazem-na sob o enfoque do ridículo.

Recordo aqui alguns títulos da imprensa, reveladores da importância do assunto. Ei-los: ''África: Aids pode atingir 90 milhões no ano 2025''. A matéria inclui esclarecimentos, como: ''cerca de 90 milhões de africanos podem ser infectados, até 2025''. A ONU calcula que há cerca de 40 milhões de pessoas infectadas com o vírus da Aids em todo o mundo. ''Aids: a pior tragédia africana, desde a escravidão''. Ou ainda: ''Aids mata uma criança a cada 15 minutos, no Zimbabwe'', afirma o Fundo das Nações Unidas para a Infância.

Esse é o quadro apresentado pela imprensa em apenas um dia, refletindo preocupações dos organismos internacionais que cuidam do assunto. Impressiona vivamente o silêncio que reina sobre a eficácia do meio atualmente existente, para fazer frente ao flagelo que ganha terreno: a abstinência sexual. Excluem o que não é possível negar e insistem num método que não oferece tranqüilidade, por não ser 100% seguro em seus efeitos.

No dia 22 de fevereiro de 2003, em meu artigo semanal, afirmei o seguinte: ''No dia 29 de janeiro do corrente ano, leio em um órgão da imprensa local, sob o título ''Camisinhas de time são falsificadas'', informação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) por ter, no dia anterior, interditado o lote de preservativo nº 06602-MD (...) e estar recolhendo o produto em todo o país''. A 17 de julho do ano 2000, eu me referia: ''A 12 de fevereiro do ano passado, um jornal de circulação em todo o Brasil publicou uma notícia com o título ''Instituto resolve recolher do mercado um lote de preservativos reprovados em teste''. A 12 de fevereiro de 1999, um órgão de imprensa publicou uma notícia sob o título ''Instituto resolve recolher do mercado lote de preservativos reprovados em teste''. Referia-se a um outro de 1.036.800 unidades, produzido pela Prudence e examinado pelo Inmetro. A marca era a terceira, em venda, no Brasil.

Não há uma palavra sobre o perigo eventual de infecção, ou a existência de outros meios de evitar essa doença mortal, como a abstinência e a fidelidade conjugal com parceiros soro negativo. Ao lado dessas observações, há uma outra que revela a mesma atitude. Refiro-me à decisão de distribuir gratuitamente preservativos aos alunos de escolas públicas, para alcançar a redução do engravidamento precoce.

Longe de favorecer a solução do problema, tal iniciativa é um estímulo a uma vida à margem de princípios morais, além de mostrar um completo desconhecimento do valor da família bem estruturada. Deve-se proporcionar uma educação sexual que não se confunda com o incentivo ao poderoso instinto e não incitá-lo, exatamente durante a puberdade e a juventude. Para qualquer pessoa de bom senso, isto é muito grave.

O que pensar das conseqüências, quando o aluno lê esse título em um grande diário, a 19 de agosto último: ''Camisinha grátis em escola pública. Preservativos serão distribuídos pelo governo a jovens, a partir de 15 anos''.

Em 1996, no relatório do professor Henri Sestradet, da Academia Nacional de Medicina, da França, lê-se: ''Convém (...) assinalar que o preservativo foi inicialmente preconizado como meio contraceptivo. Ora, (...) o índice de ''falha'' varia em geral entre 5 a 12% por casal e por ano de uso. De fato, quando, como um meio de contracepção, o contraceptivo não é perfeitamente eficaz, sua falha tem como conseqüência o desenvolvimento de uma nova vida, enquanto que, com o HIV, a falha é a morte certa'' (''Le Sida, Propagation et prévention''). Sem dúvida, faz-se mister esclarecer a afirmação, mil vezes proclamada, da segurança total atribuída ao preservativo, pois não corresponde à verdade. Apesar das campanhas internacionais e, provavelmente, por causa delas, os progressos desta pandemia são regularmente observados'' (Extrato do livro de Mons. Michel Schooyans).

Em julho de 2004, uma das mais altas autoridades mundiais em Aids, o dr. Jean Louis Labore, pediu demissão do programa das Nações Unidas contra a Aids (Unaids). Sua demissão foi motivada pela falha das ''variadas políticas para frear a propagação da doença. Essas políticas fracassaram porque a Unaids esqueceu-se de que as verdadeiras medidas preventivas se decidem nas casas das pessoas e não nos escritórios dos experts''.

As campanhas poderiam ao menos incluir a alusão à abstinência, aliás, é a única forma 100% segura de não se infectar por via sexual. Sem o estímulo, a responsabilidade ficaria somente com quem fizesse uso desse recurso.

Tive a oportunidade de escrever neste mesmo espaço, tratando deste assunto, o seguinte: ''A Igreja é acusada, às vezes, por alguns, como responsável pelo crescimento do número dos portadores do vírus, por ser contrária aos preservativos. A verdade é o oposto: toda campanha em favor das ''camisinhas'' é fator de grave incentivo à difusão do HIV. Elas, por vezes, se rompem. E o desconhecimento dessa verdade naturalmente estimula a multiplicação das relações sexuais com parceiros ocasionais.

As campanhas publicitárias em prol do seu uso promovem, na realidade, o aumento da promiscuidade e, portanto, das possibilidades de contágio. E contágio de Aids significa adquirir uma doença que ainda não tem cura.