Título: ¿O mensalão foi pensado por Dirceu"
Autor: Sérgio Prado
Fonte: Jornal do Brasil, 19/06/2005, País, p. A2
Calmo, sorridente, bem barbeado, vestindo botinas e calças pretas, camisa verde escura com listra laranja, o deputado Roberto Jefferson (PTB-SP) senta-se na sala de música de seu amplo apartamento funcional em Brasília. São 18 horas de sexta-feira. Respira fundo. Espera cinco segundos. Começa a falar de música. ¿Canto sempre¿. Nova pausa. E resume seu estado de espírito: não conta mais com seu mandato parlamentar, quer lutar por sua honra pessoal e recuperar a tranqüilidade perdida após romper com o PT. Mesmo aparentando extremo cansaço, o presidente licenciado do PTB não dá trégua na guerra em que entrou contra o PT. E logo abre fogo com sua famosa metralhadora giratória. Acusa o ex-ministro da Casa Civil, até aqui um dos homens mais fortes do governo de Luiz Inácio Lula da Silva, de ser o mentor da mesada de R$ 30 mil, que, segundo ele, era paga a deputados do PP e PL pelo comando petista em troca de apoio na Câmara.
¿ O mensalão é uma estratégia maquiavélica pensada pelo José Dirceu ¿ crava Roberto Jefferson, com voz firme, porém calma, olhando de forma incisiva, para logo em seguida voltar a sorrir brevemente.
Esta é a primeira vez que ele acusa José Dirceu de ser o cabeça do esquema, batizado de mensalão. Jefferson alega que só agora atira no ex-ministro porque ele já saiu do Executivo. O deputado petebista faz questão de repetir que o presidente Lula nada sabia do esquema, por causa de um círculo de proteção montado pelo ex-chefe da Casa Civil.
Por outro lado, Jefferson afirma com veemência que o ex-presidente da Câmara, João Paulo Cunha (PT-SP) sabia de tudo. Enfatiza também que Severino Cavalcanti (PP-PE), atual chefe da Casa Baixa, sempre teve conhecimento da compra de deputados.
¿ (João Paulo) Abriu uma sindicância às 10 horas da manhã, encerrou ao meio-dia e não descobriu nada (...) logo tratou de abafar, intimidar o Jornal do Brasil e ameaçou com processo ¿ bate Jefferson, referindo-se à reportagem publicada em 24 de setembro de 2004, quando o JB revelou que havia o mensalão. Além disso, Jefferson acha que a CPI do Congresso vai levar à cassação de dez a quinze deputados, embora diga que uma centena recebia a mesada.
¿ Não é um lugar de gente de coragem ¿ sentencia.
O senhor entrou num embate muito grande. ¿ Fui levado a isso.
Por que, deputado? ¿ Porque depois que eu disse ao presidente Lula da existência do mensalão, no princípio de janeiro, eu percebi que o PTB começou a perder prestígio no governo e se enfraquecer na mídia. Comecei a perceber que as coisas começaram a se deteriorar, depois ficaram ruins, especialmente na relação com a Casa Civil.
Acredita que tem o dedo da Casa Civil na gravação em que o Maurício Marinho denuncia um suposto esquema de corrupção nos Correios? ¿ Pode apostar que tem. Quem estartou o processo foi a Casa Civil, para tentar me intimidar e enfraquecer.
No processo dos Correios? ¿ No processo do mensalão. O que eu falei ao presidente. O mensalão é uma estratégia maquiavélica pensada pelo José Dirceu, o José Genoino e o Delúbio (Soares)...
Pensada pelo José Dirceu? ¿ Sabe de tudo, o tempo todo. Com que sentido? Como eles são socialistas, entendem que podem alugar um exército mercenário, uma bancada de aluguel. É mais barato para eles alugar deputado, a R$ 30 mil/mês, do que dividir poder.
O senhor está dizendo, pela primeira vez, que foi o José Dirceu que pensou isso. ¿ Não tenho dúvida. Eu disse ao José Dirceu da existência do mensalão um ano atrás. Logo depois de haver dito ao meu ministro, o Walfrido dos Mares Guia.
Quando o senhor teve certeza que era o José Dirceu que tinha idealizado o mensalão, na sua concepção? ¿ Não achei sincera a reação. Ele deu um soco na mesa. ¿Eu falei ao Delúbio para não fazer um negócio desses¿. Não achei uma coisa sincera. Falei para não fazer? Não mostrou surpresa. Depois falei com ele várias vezes e jamais a fonte secou, jamais o mensalão deixou de existir.
É a primeira vez que o senhor acusa José Dirceu de ser o mentor do mensalão. Por que não fez isso antes? ¿ Porque ele saiu da Casa Civil. Eu posso dizer isso agora sem desestabilizar o presidente.
Na época que a gente deu a primeira matéria, em setembro, o presidente da Câmara era João Paulo Cunha. O senhor acha que ele sabia da existência desses pagamentos? ¿ Ah, ele conhecia. O presidente era um dos que conhecia isso. Era um rumor geral. Por ouvir dizer, ele já tinha ouvido falar. Era um rumor geral, o João Paulo não sabia?
E por que ele não investigou? ¿ Disse que investigou. Abriu uma sindicância às 10 horas da manhã e encerrou meio-dia e não descobriu nada. Quando eu vi a matéria eu falei: ¿o Miro (Teixeira) vai explodir o assunto e daqui a pouco vai me chamar de testemunha¿. Mas como o assunto acabou, o João Paulo logo tratou de abafar, intimidar o Jornal do Brasil e ameaçar com processo.
E o presidente atual da Câmara, sabe? ¿ Claro, o partido dele é um dos artífices do mensalão, ele é do PP.
O presidente da Câmara recebe o mensalão? ¿ Não posso te falar se ele recebe ou não. Não sei. Creio que não. Mas a maioria dos deputados do PP recebe.
Como é que o senhor acha que vai ser esse olho-no-olho com o José Dirceu? ¿ Será que vai ser de olho no olho? Eu penso que ele vai sentar do meu lado, vai ser difícil de olhar no olho dele.
Por que? ¿ Ele vai sentar no banco dos réus, ali. Você acha que o José Dirceu vai ficar lá na frente de inquisidor?
Digamos que não seja olho no olho. Mas vai ser um embate, o senhor concorda? ¿ De frente seria melhor, mas de lado, vai dar torcicolo. Vamos poder esclarecer um ao outro. Vou rememorar ao vivo com ele as conversas que tivemos.
Com a veemência e a ênfase que o senhor fala, só um ingênuo imaginaria que o senhor não tem provas. ¿ Prova, não tenho. Tenho a experiência do que vi e ouvi. O que são provas? Gravação oculta, recibo de corrupção? Isso não existe.
Mas o PT diz que isso é uma invenção sua. ¿ O PT ou o...
Ouvi do presidente do PT... ¿ Tratou desse assunto, rasgado, comigo.
Ouvi do senador Aloizio Mercadante... ¿ Esse eu nunca conversei...
O próprio José Dirceu diz que é uma armação. ¿ O Mercadante nunca esteve nessas conversas. O Genoino e o Dirceu estiveram várias vezes nessas conversas, tanto de mensalão quanto de financiamento de campanha. O Genoino é o vice-presidente do PT. O presidente é o José Dirceu. Você fecha com o Genoino ele vem confirmar no Palácio com o José Dirceu. Tudo. A última palavra era sempre do José Dirceu.
Especula-se que Dirceu tenha provas que desmontam a sua versão e acabam com a sua carreira política... ¿ Vamos ver as provas que ele tem. Ele já está usando a Abin durante tanto tempo, vamos ver que tipo de prova o José Dirceu tem.
O senhor tem alguma mágoa pessoal com o ministro José Dirceu? ¿ Pessoal, não. Penso que ele é um homem sem palavra, sem entranha, sem coração. Usa as pessoas como laranja, chupa o caldo e cospe o bagaço.
Que outras acusações o senhor tem contra José Dirceu? ¿ Conhecer o esquema de financiamento por fora de campanha, argumentar que não entrou o restante... Se isso tem outro nome que não seja corrupção, me diga.
Qual é a fonte desse dinheiro? ¿ Eu vi uma matéria da deputada Denise Frossard. Ela acompanha uma movimentação desse dinheiro através de uma off shore que já existe, estaria ligada a esse movimento de pessoas ligadas ao PT.
Viria de empresas oficiais? ¿ Esse do mensalão, eu creio que não. São negócios de empresários privados com empresas oficiais.
O senhor acha que uma operação como a da Telmex pode internalizar dinheiro de campanha? ¿ Não tenho dúvida, pode.
Com quem o senhor negociou a ajuda de campanha? ¿ Primeiro com o Genoino, depois batendo o martelo com o José Dirceu.
O senhor falou com ele sobre esse assunto? ¿ Claro que sim.
E ele disse que seriam R$ 20 milhões? ¿ Estava fechado. Quando faltou, fui a ele várias vezes. Ele disse que era um problema da Polícia Federal, que estava dominada ainda pelos tucanos. Os doleiros tinham sido presos e não tinha como entregar dinheiro para o Brasil, porque os empresários não tinham como trazer dinheiro para repassar para os partidos financiar as campanhas.
Foi ali que secou para a campanha de prefeito? ¿ Sim.
Só que o ex-deputado Genoino disse que ajudava o PTB com material de campanha e não com dinheiro. ¿ O que ele me mandou foi dinheiro ¿ R$ 4 milhões, em duas etapas, uma de R$ 2,2 milhões e outra de R$ 1,8 milhão. Deve ser material de papel moeda que ele quis dizer. (risos largos)
A Justiça Eleitoral pode investigar o PTB por crime eleitoral... ¿ Crime eleitoral não pode ser chamado. Como o PT não me fez a entrega do comprovante da doação, não posso receber, nem como deputado, nem como presidente do partido. Recebi como Pessoa Física.
Do PT? ¿ É. Recebi como Pessoa Física.
Foi em cash? ¿ Em cash do Banco Rural e Banco do Brasil.
Pode haver outro motivo que não esse alegado para ser rompido o compromisso desses R$ 20 milhões? ¿ É falta de palavra grave.
¿ Como o senhor pode garantir que Lula não sabia do mensalão? ¿ A reação que eu vi do presidente Lula, me deu absoluta certeza. Quando ele me perguntou o que é o mensalão e eu contei, ele desmontou.
Estas denúncias ameaçam a governabilidade? ¿ Creio que não. O presidente se fortaleceu agora, tirando o foco, o problema de baixo, da ante-sala dele, que era a presença do José Dirceu.
E a reeleição está comprometida? ¿ Vejo o presidente Lula voando 50 mil pés de altitude, na estratosfera. Toda a artilharia antiaérea chega a 30 mil pés. Por enquanto nenhum tiro pegou ou ameaçou o avião.
O senhor apoiaria o presidente Lula numa nova campanha? ¿ Tem que pensar muito nisso, porque compromisso com o PT, não quero nunca mais. Eu quero apostar na governabilidade do presidente Lula, mas entendo que o PTB deve buscar um candidato próprio para disputar a próxima eleição.
¿ O senhor falou várias vezes que o presidente Lula estava blindado pelo PT. ¿ Você não acessava o presidente.
Mas Lula esteve na sua casa. ¿ Para um jantar social. Chamar ele num canto e dizer: tem uma história de mensalão... Isso não existe. Tinha que ser um despacho de trabalho. Na primeira chance de trabalho que tive com ele, contei.
Mesmo o senhor sendo presidente de um partido que estava na base de apoio e tem o líder do governo no Congresso? ¿ Mesmo sendo presidente de um partido da base de apoio. Só nos encontrávamos com o presidente quando era uma reunião coletiva de vários partidos, mas eu não tinha oportunidade de conversar a sós com o presidente da República.
Em setembro, quando o JB publicou a primeira reportagem, o senhor chegou a tentar falar com Lula? ¿ Não. O Miro queria que a gente denunciasse o mensalão. Eu falei: ¿Miro, não dá. Antes de conversar com o presidente Lula, não vou fazer isso¿.
Por que Miro recuou, na época, de uma afirmação que ele fez ao JB? ¿ Temendo enfrentar o que estou enfrentando agora.
Quantos deputados o senhor acha que recebiam o mensalão? ¿ Uns cem deputados.
A CPI pega os cem? ¿ Não sei, mas vai pegar muita gente. Uns dez, quinze. Pelo menos os cabeças a CPI vai alcançar.
Como? ¿ Quebrando sigilo telefônico, sigilo fiscal, sigilo bancário.
Um dinheiro desses passa por conta bancária? ¿ Passa na aparência de riqueza, quando a pessoa exibe padrão de vida muito acima do que pode pagar, demonstrações externas de riquezas.
O senhor acha que é possível o José Dirceu perder o mandato? ¿ Acho que sim. Penso que é muito possível o Dirceu perder o mandato. As coisas convergem todas para ele.
E o senhor, acha que será cassado? ¿ Eu penso que sim. Não é fácil você brigar com o partido do poder. Estou como aquele muçulmano, cheio de bomba no corpo.
Mas, o senhor não tem medo de perder seu mandato? ¿ Nenhum. Já sublimei o mandato. Luto hoje pela minha honra pessoal, pela honra do meu partido, da minha família, dos meus amigos, pela honra da cidade onde nasci.
Na sua opinião a CPI vai transcender a questão dos Correios? ¿ Não tem como segurar. Eu me recordo que o caso do Collor começou com a CPI do PC Farias. Foi uma loucura que ninguém segurou mais.
O senhor chegou a ser intimidado? ¿ No dia que fui falar à Comissão de Ética, a Polícia Federal invadiu a casa da minha filha, tentando me abalar emocionalmente.
O senhor não teme pela sua vida? ¿ Do tipo Celso Daniel? Uma coisa assim, tipo Santo André? Acho que um segundo Celso Daniel derruba a República. Aquele primeiro já é muito mal explicado. Se atentarem contra mim, como é que vão explicar?
O senhor atribui ao PT o caso Celso Daniel? ¿ Eu não, a família do Celso Daniel é que atribui.
O senhor falou na Comissão de Ética que a maioria da Câmara não tinha sinceridade suficiente para fazer a assepsia que deve ser feita. ¿ Acho que o Congresso não é um lugar de gente de coragem.
Por que o senhor livrou a bancada do PT das acusações? ¿ A bancada do PT é difícil mas é idealista. Tem umas cinco, seis facções, mas nunca ouvi dizer que tivesse mensalão para a bancada do PT.
Mas isso pode ter sido uma estratégia para garantir o respaldo dos três grandes partidos ¿ PT, o PFL e o PMDB ¿ para salvar seu mandato... ¿ No PT os deputados podem até ficar agradecidos pela ressalva que faço a eles. Mas eles fazem o que o partido manda. Se o menino-propaganda do PT, que é o José Dirceu, foi atacado por mim, até num instinto de defesa, eles vão me cassar.
No seu depoimento na terça-feira o senhor disse que era só o prenúncio. Que sentido o senhor quis dar? ¿ É o começo das coisas. Começam a pipocar. Destampou a panela.
O senhor tem mais a dizer? ¿ O que tinha a colocar, já coloquei.
O senhor está tranqüilo? ¿ Estou. Já falei para você: sublimei o mandato. Daqui pra frente é manter a serenidade, cabeça fria, pensar. Se você me perguntar: está feliz com o momento que está vivendo? É claro que não. Me tira a espontaneidade da vida, tira o romance, deixa de ter a vida de coração, de intuição. E vivo a incerteza do que vai acontecer amanhã. Cassado, não cassado. O que vou fazer na vida amanhã, vou cantar?
Vai? ¿ Estou pensando seriamente.