Título: Clima tenso azeda encontro histórico
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Fonte: Jornal do Brasil, 22/06/2005, Internacional, p. A10
JERUSALÉM - Em virtude de desacordos sobre segurança ampliados pela prisão de uma mulher-bomba palestina e por uma incursão israelense que prendeu ativistas da Jihad Islâmica em quatro cidades na Cisjordânia, o primeiro-ministro de Israel, Ariel Sharon, e o presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, não fizeram progressos num encontro de duas horas em Jerusalém. A reunião foi na residência do primeiro-ministro, na primeira vez que uma autoridade palestina era recebida ali oficialmente.
- Foi difícil e não esteve à altura do que esperávamos, nem do que previam os árabes e a comunidade internacional - avaliou o primeiro-ministro palestino, Ahmed Qorei, durante entrevista após a cúpula. - O que nos foi apresentado não foi convincente nem satisfatório - acrescentou.
Apesar da queixa da ANP, um assessor do governo israelense disse que Sharon aceitou devolver as cidades de Belém e Qalqilya, na Cisjordânia, para o controle palestino ''em duas semanas'', se houver progressos nas questões de segurança.
- Estamos oferecendo se eles implementarem o plano necessário - declarou Raanan Gissin.
Segundo ele, Sharon deixou claro que está disposto a libertar mais de 7.000 palestinos detidos em prisões israelenses, mas sob a condição de que o regime de Abbas ''contenha fugitivos, ponha militantes sobre controle e evite a atividade terrorista''.
Segundo uma piada de jornalistas que acompanharam a reunião, ''teria sido a mesma coisa se Abbas e Sharon trocassem mensagens pelo celular''. Isso já era previsto, uma vez que esse encontro era vago em expectativas. Nada do que foi discutido pôde ser ouvido. Não havia previsão de conferência de imprensa conjunta, o que indicava desde o início que não haveria nada mesmo a ser dito.
Em vez disso, os assessores de Abbas falaram com os repórteres em Ramala e admitiram que ''não houve acordo sobre nenhum dos inúmeros itens que foram discutidos'', incluindo a reabertura do porto e do aeroporto de Gaza e a redução à restrição de movimentação econômica. Para o presidente da ANP, Israel precisa fazer essas concessões como uma demonstração de que o compromisso com um acordo de paz é confiável.
Sharon, por seu turno, divulgou comunicado afirmando que os dois lados haviam concordado em uma cooperação total na retirada de Gaza. Mais tarde, em uma convenção, voltou a acusar Abbas de não impedir a ação de extremistas. Segundo militares, o presidente palestino usa suas forças policiais contra grupos radicais, mas não age contra o movimento Hamas.
A atmosfera tensa foi um contraste com a reunião de fevereiro em Sharm el-Sheikh, no Egito, quando os dois líderes declararam o fim das hostilidades. Num incidente embaraçoso para Abbas, uma jovem de 21 anos foi presa segunda-feira ao tentar acionar explosivos que vestia na passagem de Erez, entre o Norte de Gaza e Israel.
A prisão da jovem ocorreu horas depois que um palestino armado matou a tiros um colono judeu em Gaza, num ataque reivindicado pela Jihad Islâmica, que também se envolveu numa ação contra um posto do exército no domingo.
Em resposta, militares israelenses prenderam ontem pelo menos 50 supostos ativistas da Jihad. Destes, 36 foram detidos em Hebron e Belém. Outros 14 foram capturados em Ramala, Qalqylia e Jenin. Foi a maior operação em seis meses.