Título: O tamanho do problema
Autor: Maria Lucia Victor Barbosa
Fonte: Jornal do Brasil, 19/06/2005, Outras Opiniões, p. A12

A queda do todo-poderoso ''primeiro-ministro'' e ''gerentão'', José Dirceu, indica o tamanho da crise, aprofundada com o depoimento do deputado Roberto Jefferson. A saída foi derrota para o presidente Luiz Inácio e para o PT, manobra desesperada e tardia do governo que até então tinha sido capaz de evitar o desgaste de sucessivos escândalos, que em épocas nas quais vigoravam outros valores teriam derrubado o próprio presidente. Na verdade, o ex-ministro foi obrigado a atender ao recado do deputado petebista: ''Dirceu, se você não sair daí rápido, vai fazer réu um homem inocente''. Como todos os esforços são no sentido de preservar o ícone petista como cidadão acima de suspeitas, porque sem ele o PT não se mantém no poder, foi acertada a saída de José Dirceu por demais envolvidos em várias denúncias, iniciadas pelo caso Waldomiro Diniz, homem de confiança no ministério.

De todo modo, as graves acusações que pesam sobre o ex-ministro e outros membros do governo e do PT, mesmo que sem provas, como dizem os petistas (para o presidente Collor não houve a necessidade de provas), continuam a existir e ou são esclarecidas nas CPIs ou a credibilidade que resta aos congressistas se extinguirá, como quase está a crença na ética do governo Lula.

José Dirceu ficou ''blindado'' pelo mandato e, certamente, com seu vezo autoritário de ex-guerrilheiro, vai querer comandar o Legislativo, manobrar as temidas CPIs e continuar a mandar no Executivo, como ele mesmo insinuou em seu discurso de despedida. Todavia, sem o prestígio do cargo ministerial, possivelmente encontrará limites em suas ações, sendo bom lembrar que, se comandou a política com mão de ferro, o fez de forma desastrada, no estilo líder estudantil, mas sem a pureza da juventude.

Espera-se novamente a reforma ministerial que deveria ter acontecido em dezembro de 2004 e que pode recompor a base governista no momento estraçalhada. Mais aliados ministros, mais negociatas feitas no balcão da política, algo antes tão criticado pelo PT e agora largamente praticado. A idéia é garantir votações, manipular as temidas CPIs, obter acertos partidários para a reeleição do presidente Luiz Inácio.

Além disso, a propaganda irá recrudescer com ''boas notícias'' e acontecerão manifestações de apoio ao presidente, feitas por militantes devidamente organizados - algo que faz lembrar o PRI mexicano. Alguns ditos movimentos sociais, como o MST, pedirão que Luiz Inácio governe com o povo, idéia golpista que sugere uma ditadura de esquerda com ares de democracia, versão do modelo venezuelano admirado no Brasil. Não faltarão também constantes aparições e pronunciamentos do presidente da República, que sob ensinamentos de Duda Mendonça mostrará feitos inéditos e extraordinários do seu governo, apesar do fracasso dos projetos sociais, dos impostos extorsivos, do declínio do crescimento econômico, do desemprego e da inoperância governamental diante da violência impune.

Finalmente, em meio às acusações de pagamento de ''mensalão'' a deputados, e outras mais, resta saber se o presidente e o PT serão de fato capazes de provar à opinião pública que são inocentes em meio ao maremoto de lama que enxovalha o país, ou se apenas continuarão a se defender atacando adversários e criando factóides. Mesmo porque, ainda que o governo interfira nas CPIs e intimide testemunhas, é de se supor que provas poderão surgir para confirmar o irrepreensível depoimento do deputado Roberto Jefferson. Nesse caso, é preciso lembrar que presidentes, ministros e parlamentares passam sem ocasionar nenhuma convulsão nacional, ao contrário do que diz a tropa de choque do PT. Se diante do tamanho da crise funcionarem mais uma vez as operações abafa-escândalo do governo, e as CPIs acabarem em pizza, aí, sim, perigam as instituições e o Estado Democrático de Direito. Termino repetindo a exortação do jornalista João Mellão Neto, ao Congresso Nacional: ''Pois se há uma verdade na história humana, é a de que, na vida e na sociedade, os canalhas só prosperam quando os homens de bem insistem em se omitir. De pé, senhores, de pé! De joelhos, somente perante Deus!'' (O Estado de S. Paulo, 17/06/2005).