Título: Política e estabilidade econômica
Autor: Leonardo Silva Andrada
Fonte: Jornal do Brasil, 19/06/2005, Outras Opiniões, p. A12

Nem o PT nem a oposição podem desprezar a estabilidade, por pragmatismo e por coerência

Nos últimos dias, o debate político girou em torno das recentes denúncias de corrupção na cúpula do governo. Entre as possíveis conseqüências imediatas, a de maior preocupação para investidores e empresários seria o impacto que tal turbulência poderia causar na estabilidade econômica. Há indícios que apontam para uma resposta negativa sobre uma possível instabilidade econômica ter ligação com a cena política em ebulição, contrariando a expectativa da oposição ao governo.

Não se pode dizer, contudo, que a economia esteja apresentando desempenho satisfatório; desde a retomada do movimento de crescimento das taxas de juros, a partir de setembro do ano passado, os esforços de controle inflacionário têm gerado descontentamento entre o empresariado brasileiro, que reiteradamente vem advertindo o governo dos efeitos diretos de tal orientação. A estagnação (ou mesmo uma retração) da produção industrial e a queda no consumo são os sintomas mais imediatos. A consulta aos índices que ora oscilam permite interpretá-los dissociados da instabilidade política atual.

A Bovespa, com todas as oscilações inerentes ao mercado financeiro, apresentava um ligeiro aumento na semana anterior às denúncias, mas já havia apresentado baixa significativa, com queda acumulada de 2,44% no ano. O dólar vinha experimentando quedas consecutivas, e a retomada da desvalorização cambial do real é anterior ao início da ''crise'', sendo mais um reflexo da preocupação do governo e dos setores exportadores do que uma recepção negativa das notícias. O ''risco-país'', também com elevado grau de oscilação, apresentou quedas consecutivas no início da crise, tendo aumentado ao longo da semana de maior turbulência; na semana seguinte, já retomava o movimento descendente.

Diante desses dados, é razoável admitir que algumas tendências negativas já se precipitavam no cenário econômico antes mesmo de ser anunciada corrupção nos Correios ou no Legislativo. Entretanto, considerando-se a enorme sensibilidade da economia ao momento político, talvez fosse o caso de conjeturar a respeito de um provável efeito agravante que a crise política poderia ter sobre essa tendência negativa.

Mesmo diante dessa possibilidade, não parece que o cenário esteja propício à criação dessa bola de neve de instabilidade. Primeiro, porque há uma aversão generalizada à instabilidade institucional. Os períodos finais dos governos João Goulart e Fernando Collor, ou os cenários caóticos em que se precipitaram os vizinhos sul-americanos recentemente, são exemplos de desfechos dramáticos para situações de séria crise institucional.

Politicamente interessada na desestabilização do governo, a oposição, no entanto, sabe dos riscos e do alto grau de incerteza de um quadro de completa desagregação política. As declarações de eminentes líderes oposicionistas são sintomas desse desinteresse por uma corrosão completa do sistema político, indicando a preferência por trabalhar em um cenário com alguma previsibilidade.

Outro aspecto que fortalece a interpretação de que a bola de neve não chegará a se formar, nem muito menos descerá ladeira abaixo, é a aceitação da estabilidade macroeconômica por ambos os lados do espectro político (descontados os assim chamados ''radicais''). Após a recepção popular dos efeitos mais imediatamente sensíveis do Plano Real - controle inflacionário e aumento do poder de compra, principalmente -, a promessa de estabilidade na economia converteu-se em trunfo eleitoral apreciado por todos.

Nem o partido do presidente nem a oposição podem desprezar a estabilidade, por pragmatismo e por coerência. Pragmaticamente, já estamos em período eleitoral, e a ameaça de retorno à hiperinflação teria impacto indesejável junto ao eleitorado. Mesmo que no período de implementação das medidas de estabilização o PT tenha liderado o bloco de oposição nas críticas ao Plano Real, a derrota nas duas eleições seguintes imprimiu novos rumos no programa político e econômico do partido, que por fim absorveu os fundamentos da estabilidade como universais na campanha vitoriosa de 2002. A equipe nomeada por Lula seguiu à risca o modelo econômico defendido pela equipe do governo anterior, não ocorrendo a temida ruptura. Não parece lógico, portanto, que venha a atacá-la por oportunismo.

A crise política pode não abalar a economia, mas é pela via econômica que o governo busca contorná-la, como provam algumas medidas em curso, entre as quais se inclui o corte de impostos para os setores exportadores, de infra-estrutura e construção civil, com a expectativa que liberem investimentos.

A atuação propriamente política acarretará transformações profundas no primeiro escalão do governo e deve ser arrastada até o ponto em que possa ser conduzida distante dos holofotes da mídia. Envolve a reforma ministerial e a troca de altos funcionários (como o próprio presidente do Banco Central). Será crucial ainda para o governo reconstruir a base aliada sob novos padrões e definir as coalizões para conduzir o que resta do mandato e acertar o passo para as eleições de 2006.

*Leonardo Silva Andrada é pesquisador do Núcleo de Estudos do Empresariado, Instituições e Capitalismo (NEIC), do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj)