Título: ''Estou exilado dentro de meu país''
Autor: Mariana Santos
Fonte: Jornal do Brasil, 19/06/2005, Brasília, p. D5

Apesar de garantir que não pretende deixar, pelo menos por enquanto, o PT ¿ legenda que o abriga há 15 anos ¿ o senador Cristovam Buarque não consegue esconder a desilusão. Além de não ter superado a demissão do Ministério da Educação, por telefone, em fevereiro do ano passado, o ex-governador do DF afirma que não há diálogo com a cúpula, a quem acusa de arrogância. Ele declara sentir-se como nos tempos em que passou nove anos (1970-79) no exílio, fora do Brasil, escapando da ditadura militar. Em entrevista ao JB, Cristovam admite a dificuldade de relacionamento com o ex-ministro-chefe da Casa Civil José Dirceu, cuja saída ele já vinha defendendo. ¿O problema de Dirceu é que ele é maior do que o cargo¿, diz. Entre suas frustrações, não conseguiu sequer conversar com o presidente Lula sobre a sucessão no GDF.

¿ No horário do PT na televisão desta semana, o senhor falou sobre resgate da ética no partido... ¿ Existe uma crise ética no PT muito séria, talvez maior do que outros partidos viveram, porque o PT é o que mais defendeu a ética acima de qualquer coisa. Exigia dos outros pureza, e se considerava o único dono dela.

¿ É crise apenas na cúpula ou recai no resto do partido? ¿ Na cúpula. Acho que a base do PT hoje está impaciente, descontente, envergonhada, mas não perdeu aquela pureza. A cúpula do PT, seus dirigentes que estão no governo, são os verdadeiros responsáveis por essa situação. E há um divórcio hoje entre a base e a cúpula. Isso vem de uma coisa muito simples: as direções deixaram de respeitar as bases, como agora, na tentativa de adiar as eleições diretas internas, a`PED..

¿ O senhor acredita que essa situação começou com a chegada do PT ao Planalto? ¿ Sim, porque o PT manteve-se sempre como partido de reivindicações e não de propostas. As reivindicações fazem o partido funcionar bem quando é oposição. E o PT foi um guarda-chuva dos grupos reivindicatórios. Quando você chega ao governo, não tem condições de garantir tudo para todos. O que une o país não é atender os desejos de cada um, o que é impossível, mas ter um projeto comum a todos. O PT não tinha projeto de país. Outra coisa que a chegada ao poder fez foi colocar no Planalto um grupo com muita arrogância, que se sente dono do poder e senhor das coisas.

¿ Falta diálogo com os parlamentares? ¿ Sim. O governo trata o Parlamento como se ele fosse uma casa de picaretas, como se disse anos atrás. A bancada no Senado não foi consultada para saber o que pensamos sobre a nomeação do presidente e do relator da CPI dos Correios. Isso é arrogância, agravado pelo fato de que todo esse grupo é de um único estado: São Paulo. Sinto que há um certo desprezo por quem não é do grupo histórico do PT paulista. A arrogância e a falta de projeto são as duas grandes causas de tudo isso. Não acho que esteja havendo isso porque as pessoas do governo sejam desonestas, não. Com essa arrogância, deixou-se de prestar atenção no que acontecia no dia-a-dia do governo.

¿ O projeto de reeleição também acabou atrapalhando essa condução? ¿ Não tenho dúvidas. Talvez essa seja a maior das causas, porque o Lula está pagando o preço de ser o primeiro presidente que já toma posse como candidato à reeleição. Fernando Henrique só descobriu que podia ser reeleito meses depois, quando conseguiu, de uma maneira que levanta muitas dúvidas, aqueles votos, mas o fato é que ele passou dois anos ou mais só como presidente. O Lula só foi presidente no dia 1º de janeiro, dia da posse. Assim, ele passa a pensar que tem oito anos e não quatro. Então adia as coisas que queira deixar como seu legado. Segundo, começa a fazer alianças, não para governar, mas para ganhar a próxima eleição. Aí faz aliança com qualquer um. Confundiu-se o apoio para reeleição com o apoio para governar. Terceiro, a oposição trata o presidente como candidato e ele se nivela. A reeleição é a maior armadilha que dificulta o governo do presidente Lula e vai dificultar os próximos presidentes.

¿ O senhor ainda acredita na reeleição? ¿ Sim, porque na hora do voto a personalidade carismática vale muito. E o Lula é, sem dúvida alguma, o maior de todos os líderes carismáticos que a gente tem e isso vai pesar muito na eleição. E tenho esperança que isso não chegue no próprio Lula. Ele pode ser reeleito, mas vai ser difícil reeleger uma boa bancada porque qual é a diferença que a gente vai apresentar para pedir votos para os nossos candidatos? Não pode ser mais a bandeira de que somos os únicos honestos, nem a de que Lula precisa de deputados do PT para apoiar o governo dele. O PT não vai ter mais aquele voto de partido. Por outro lado, a grande força do PT é a militância e eu temo que a militância não vá para a rua com a mesma força. Pior do que a desilusão, é ter gente com vergonha de botar a estrelinha, de carregar a bandeira. E vai ter. Por que pelo que a gente vê por aí, o dinheiro do Delúbio vai para os outros partidos.

¿ Essa postura do PT então é a causa de conflitos internos? ¿ O PT sempre foi dividido. Acho que é o contrário: talvez isso unifique o partido nas bases contra as direções. Por exemplo: hoje tem muitos candidatos a presidente e não duvido que daqui a pouco todos estejam unidos contra o Genoino.

¿ Formar uma dissidência? ¿ Não sei se formar dissidência ou tentar tomar o controle do partido.

¿ O senhor está desiludido? ¿ Na minha idade a gente não tem mais direito de ficar com desilusões. Estou preocupado, sobretudo porque estou me sentindo impotente. Estou numa posição privilegiada, como senador, e não estou sabendo exatamente o que fazer para mudar esta realidade. É como se eu estivesse, outra vez, exilado, como fiquei nove anos, só que agora dentro do Brasil, no Senado, mas alienado das discussões, sem ter onde dar opinião.

¿ Isso o afasta do partido? ¿ Acho que a gente só deve buscar outro partido depois que a gente sai de um. É como casamento. E eu só saio do PT quando sentir que de fato esgotou-se como partido que iria, como sempre defendeu, completar a República.

¿ Seus projetos políticos pessoais podem ser um fator a mais para que o senhor deixe o partido?

¿ Se continua o grupo dominando sem ouvir, sem dar chance que eu fale dentro, não vejo por que continuar no PT. Se a minha voz não pode ser ouvida, pela arrogância como o grupo que dirige o PT conduz as coisas, não verei razão para continuar nele. Um dos grandes erros do presidente Lula é que ele se fechou em torno de um grupo que é todo de São Paulo, e que vê os outros estados como satélites. Fernando Henrique Cardoso foi um salto adiante da velha República, mas em vez de se aliar ao PT, o que fez? Se aliou à parte antiga da República. E aí o Lula se elege. É um salto adiante, porque aí é um operário, mais à esquerda, vem da massa. O que ele faz? Ao invés de se aliar ao Fernando Henrique e ao PSDB, se alia à parte antiga. Por que isso? Porque os dois partidos disputam São Paulo. O PSDB e o PT colocam São Paulo na frente do Brasil. Se não fosse isso, o PT e o PSDB estariam juntos.

¿ O senhor vê nisso a grande dificuldade para ser candidato à presidência? ¿ Se eu sair do PT é porque o PT se esgotou. Se eu for para outro partido é porque acho que esse outro partido traz uma proposta. Se lá na frente eles vierem me escolher para ser candidato a presidente, é outro problema. Jamais irei para um partido exigindo ser candidato a presidente. Agora, é claro, que a chance de ser candidato a presidente, pra mim, é muito pequena. Dentro do PT, pelos próximos 20, 30 anos, o candidato será de São Paulo. E eu não vou me mudar para São Paulo.

¿ O senhor considera superado o episódio da sua demissão do Ministério? ¿ No sentido emocional superei nos dois, três dias seguintes. Do ponto-de-vista da minha frustração histórica, não vou superar nunca. Eu ia ficar na história como alguém que, no mínimo, erradicou o analfabetismo no Brasil. É claro que isso me dá uma tremenda frustração.

¿ A quem o senhor atribui sua saída? ¿ Isso deve ser perguntado ao presidente. Eu não tive nenhuma conversa com ele, nem por telefone, desde que saí do Ministério. Estive em um jantar com senadores do PT e ele, mas não houve conversa. Não tive nenhum telefonema dele depois disso, nem no meu aniversário. (risos)

¿ Existe uma conversa de bastidores de que existe uma mágoa do José Dirceu por acreditar que ele foi o responsável pela sua demissão. E de que ele estaria mandando recados de que não foi o culpado. ¿ Tenho certeza de que José Dirceu não teve nada a ver com a minha saída. Isso foi decidido pelo presidente Lula, que é a única pessoa a quem eu agradeço por ter sido nomeado. Tive dois problemas com Dirceu. Primeiro porque passaram-se 10 meses saindo da Casa Civil notinhas degradando o meu trabalho no MEC. Eu as tenho colecionadas e mostrei a ele.

¿ E ele disse o que? ¿ Que não era ele, mas parou a partir daquele dia (risos). Acho que isso não foi um gesto, sinceramente, decente de tratar um companheiro. Segundo, achei um grave erro do Lula ter nomeado para a Casa Civil um homem com o tamanho, a força e o poder do José Dirceu. Chefe da Casa Civil tem de ser uma pessoa que pouca gente conheça, um gerente com bom trato de relações públicas e um certo sentido político, mas não muito.

¿ Por que essas notas? ¿ Acho que o governo, no começo, teve uma certa leviandade na relação com a imprensa. O pessoal que estava no Planalto tinha passado 20 anos com uma relação de amizade, de passar notas, de ser fonte. Ao mesmo tempo que isolaram o Lula de falar com a imprensa, eles mantinham uma relação quase que promíscua, se divertiam em passar notinhas humorísticas. Alguns dizem: ¿ele queria destruir o Cristovam porque podia ser candidato contra o presidente¿.

¿ Como a atual crise poderá influenciar as eleições no DF? ¿ Aqui vai afetar muito mais, por causa do funcionalismo público, que está descontente, a desilusão é maior. Brasília é uma cidade meio vermelha, meio azul. E os vermelhos estão encabulados. Aqui vai ser ainda mais difícil do que nos outros Estados.

¿ Ou seja, favorece a oposição ao PT aqui? ¿ Essa geléia geral que se fez dos partidos também quebrou aquela ruptura ferrenha entre PT e o resto ¿ o PMDB apóia o Lula. A gente não vai poder bater no PMDB do jeito que batia antes.

¿ Diante dessa necessidade de rearranjo, de fortalecimento, aumentam as chances de o PT não ter candidato próprio no DF? ¿ Não sei se aumenta ou não. Mas acho que ainda tem uma chance de que o Lula diga ao PT que no DF o candidato não será do PT.

¿ Com a sua saída, há quem aposte que o Magela tenha se fortalecido. O senhor concorda com essa análise? ¿ O Magela é o único que se apresentou como pré-candidato. Surgem os nomes da Maninha, do Sigmaringa, da Arlete. Mas é só especulação. Hoje, sem dúvida alguma, a candidatura do Magela é a mais forte. Mas não quer dizer que tem que ser ele, não.

¿ O senhor acha que ele é o melhor candidato? ¿ Isso não vou dizer. Vou esperar as prévias para escolher.

¿ Duas candidatas ¿ Arlete e Maninha ¿ entre os atuais pré-candidatos que são mais ligadas ao senhor. Tem conversado com elas? ¿ Tenho conversado muito, mas se as duas forem, é capaz de eu não apoiar nenhuma. Se apenas uma delas forem, será minha candidata, qualquer uma das duas.

¿ Avaliando hoje, o senhor acha que foi precoce a sua retirada de cena das prévias para concorrer ao GDF? ¿ Não é uma questão de disposição. Numa candidatura dessas, a disposição chega. E chegaria pra mim. Mas já dava para prever que eu não seria o candidato escolhido pelo Palácio do Planalto. Já tinha dito que não seria candidato contra o Palácio do Planalto, que não seria no cerrado o que minha amiga Luizianne foi em Fortaleza. Mesmo assim esperei para ter uma conversa com o Lula para discutir três pontos: se o candidato daqui será do PT; se eu seria o candidato do Lula; e como seria o governo dele ¿ porque se o próximo governo dele for como este, prefiro não ser governador. Essa conversa não houve.