Título: Presos rebelados se crucificam em protesto
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Fonte: Jornal do Brasil, 25/06/2005, Internacional, p. A8

QUITO - A difícil negociação com as autoridades equatorianas, que se recusam a adotar reformas no sistema penitenciário, levou os presos do país a radicalizar o protesto que iniciaram na segunda-feira. Na quinta-feira, seis deles foram amarrados a cruzes, outro usou pregos para se crucificar, duas mulheres costuraram a própria boca e dezenas têm se automutilado, escrevendo mensagens de protesto e reivindicações com próprio sangue. O movimento tem a adesão de 90% das 34 prisões do país, segundo informações dos presos.

- Iniciamos uma etapa de crucificações em todas as prisões do Equador para exigir do Congresso uma mudança radical no sistema das penas - explicou Washington Grueso, um porta-voz dos detentos.

Os parlamentares estão reunidos desde quinta-feira para debater sobre uma reforma do sistema penitenciário no Equador.

As prisões do Equador têm hoje 11.650 pessoas, embora tenham capacidade para apenas 6.500. Segundo Grueso, desse total, mais da metade (65%) não deveria nem estar em unidades para prisioneiros condenados e esperam por seu julgamento há mais de um ano. A imediata libertação desses prisioneiros é uma das principais reivindicações do movimento, que também pede a redução das penas para os que tiverem bom comportamento, benefício extinto em 2001.

Esse é o caso de três dos prisioneiros que se deixaram amarrar a cruzes e permaneciam assim até ontem. Os três, estrangeiros, são acusados de tráfico de drogas, e entre eles está uma brasileira, ainda segundo o porta-voz. Os outros dois são um chileno e um colombiano. Eles estão em dois centros penitenciários do porto de Guayaquil. Outro chileno, Daniel Pentenero, é um dos presos que se crucificaram com pregos e fizeram greve de fome.

- A brasileira está presa há um ano e meio, o chileno há dois anos e o colombiano há um ano e nove meses - disse Washington Grueso.

As autoridades reforçaram a segurança em torno das penitenciárias. Na quinta-feira, o ministro do Interior equatoriano, Mauricio Gandara, e representantes dos presos se encontraram, mas não conseguiram chegar ao fim do protesto

- Não pudemos concluir um acordo porque o governo não tem política de reinserção - declarou Grueso.

Segundo ele, o ministro ''se limitou a pedir o fim do movimento de protesto'' sem oferecer nada em troca.