Título: O preço da reforma
Autor:
Fonte: Jornal do Brasil, 28/06/2005, Opinião, p. A10
Embora os governos tenham o péssimo hábito de conferir caráter de pormenor ao fato de que a substituição de um ministro, ou ministra, deveria obedecer à lógica da eficiência, é fundamental que da nova reforma do governo Lula nasça um ministério marcado pela competência administrativa. Afinal, imerso num pântano de problemas éticos e administrativos que se arrastam incomodamente, o Palácio do Planalto tem na mudança uma rara oportunidade para não somente recompor as forças da coalizão governista, como refazer a imagem de inércia que se cristaliza nos cidadãos e reorganizar administrativamente a gestão do Estado brasileiro. Entre a promessa e cumprimento de tais desafios, contudo, encontra-se o papel central do PMDB para a definição do perfil da nova equipe do presidente Lula. Da preocupação com a eficiência, deseja-se que se ocupem o Palácio do Planalto e os peemedebistas. Somente assim a crise deflagrada pelas fraturas expostas do comércio de votos entre os poderes Executivo e Legislativo poderá ajudar a extirpar da administração os maus exemplos, reafirmar a importância estratégica das ilhas de excelência evidenciadas até este momento e rearrumar as áreas que revelaram pouco mais do que boas intenções. Para tanto, é fundamental que, das negociações políticas entre governo e PMDB, descartem-se nomes com possibilidade de candidatar-se no próximo ano. Convém ainda adotar critérios essencialmente técnicos na definição dos novos ministros, bem como reduzir o vasto número de cargos de confiança que adornam a lista de benefícios concedidos a partir de Brasília.
Mais uma vez, os peemedebistas ocupam o centro dos debates das mudanças no governo. Novamente revelam espantosa divergência sobre os rumos a seguir. O PMDB, sabe-se, constitui um aglomerado de tendências e interesses paroquiais. Conduzida por grupos de caciques regionais, a legenda vem, sucessivamente, deixando o Planalto refém de suas disputas. Dividido em duas grandes alas - a que apóia diretamente o governo e a não-governista -, o partido separa-se entre os que se sentem saciados com cargos, verbas e ministérios e outros que rejeitam a participação na coalizão de Lula. Dessa divisão sobressai-se a atual resistência dos governadores peemedebistas - que aconselham apoio parlamentar ao presidente, mas resistem à idéia de participação no governo. Assim, o Planalto pode ser forçado a ampliar suas concessões.
Por tais razões, o ministro Antonio Palocci ganhou especial relevo nas negociações da reforma. Arranhados pelo centralismo fiscal brasileiro, por um lado, e estimulados pelos desejos eleitorais, por outro, os governadores têm exigido uma conta alta para o Planalto, conforme revela a manchete de hoje do JB. O tamanho da exigência sugere que qualquer conversa passará sobre a mesa de Palocci. Contabilizam-se, aí, liberações de verbas para obras pendentes, concessões tributárias e fiscais e apoio eleitoral. Resta saber, portanto, o preço que o país vai pagar por esta nova reforma ministerial. A sociedade cobrará coerência de ambos - PMDB e governo. Exigirá a presença dos melhores quadros, sem que se esqueçam os dilemas morais enfrentados até aqui. Da resposta a tais exigências dependerá o fim deste mandato do presidente Lula.